O horror dentro da caixa em Dance and Laugh Amongst the Rotten
Por Michel Sales
Um grupo de jovens se reúne para brincar com um tabuleiro Ouija e tentar estabelecer contato com os mortos. A entidade que responde diz chamar-se Charlie e, a princípio, apresenta-se como uma espécie de amigo. Só que a brincadeira rapidamente toma outro rumo. As mensagens ficam ameaçadoras, o espírito revela uma natureza cada vez mais hostil e o ritual termina em desastre. O pior: o grupo não consegue fechar adequadamente o portal que abriu.
Esse é o ponto de partida de Dance and Laugh Amongst the Rotten (2017), quinto álbum do Carach Angren e um dos trabalhos em que a banda retoma de maneira mais evidente seu universo de horror, fantasmas, possessão, morte e fenômenos sobrenaturais, depois da abordagem mais contemporânea e brutal de This Is No Fairytale (2015).
O disco funciona como uma coleção de pesadelos interligados por uma mesma atmosfera. É como se cada faixa fosse uma cena de um filme de terror, com personagens, objetos amaldiçoados e acontecimentos sobrenaturais que pouco a pouco vão formando um universo.
“Opening” cumpre exatamente esse papel: é a abertura de um filme de horror. Piano, cordas e orquestração criam aquela sensação de que alguma coisa antiga e proibida está sendo descoberta. É como abrir uma caixa que deveria permanecer fechada. E, logo depois, vem “Charlie”, colocando o ouvinte diante da entidade que desencadeia boa parte do pesadelo.
Em “Blood Queen”, surge uma figura espectral ligada à morte e à violência. Musicalmente, é uma das faixas mais cinematográficas do álbum, combinando mudanças de andamento, orquestrações grandiosas, vocais extremos e uma atmosfera digna de um filme de horror gótico. A música soa quase majestosa, enquanto a história contada é grotesca. É justamente esse contraste que torna a faixa tão interessante.
“Charles Francis Coghlan” traz uma das histórias mais curiosas do disco porque parte de um acontecimento real. Charles Francis Coghlan foi um ator canadense que morreu em 1899 e foi enterrado em Galveston, no Texas. Anos depois, um furacão destruiu o cemitério e seu caixão acabou sendo levado pelo mar. O corpo foi encontrado posteriormente na costa da Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, região próxima de onde Coghlan havia nascido.
O Carach Angren transforma esse episódio insólito em uma espécie de balada fantasmagórica sobre um morto que literalmente retorna pelo oceano. É um excelente exemplo da capacidade da banda de pegar um acontecimento histórico e transformá-lo em matéria-prima para o horror.
Em “Song for the Dead”, o álbum assume um tom quase elegíaco. É menos uma explosão de terror e mais uma espécie de canção para os mortos, marcada por uma atmosfera teatral e melancólica. As orquestrações ganham ainda mais espaço e ajudam a construir um dos momentos mais sombrios e contemplativos do disco.
“In de Naam van de Duivel”, cujo título significa “Em Nome do Diabo”, em holandês, mergulha diretamente na temática demoníaca e religiosa. A faixa mantém a lógica do álbum: histórias aparentemente independentes que compartilham o mesmo universo de morte, ocultismo e sobrenatural. Já “Pitch Black Box” apresenta a famosa “caixa preta” como um objeto maldito, um recipiente para aquilo que deveria permanecer escondido. E aqui está uma das grandes sacadas conceituais do álbum: o objeto físico que o ouvinte tem nas mãos passa a fazer parte da própria narrativa.
Em “The Possession Process”, a garota que começou brincando com o Ouija vai sendo progressivamente dominada pelo mundo espiritual que ajudou a abrir. É o momento em que a brincadeira deixa definitivamente de ser brincadeira. O sobrenatural deixa de estar do outro lado do tabuleiro e passa a ocupar o corpo e a realidade dos personagens.
O pesadelo chega ao fim com “Three Times Thunder Strikes”, uma conclusão explosiva para toda essa sequência de acontecimentos. Ao longo do disco, a simples curiosidade pelo sobrenatural vai se transformando em algo completamente fora de controle. E é justamente aí que o conceito do álbum ganha sua melhor sacada: os espíritos estariam presos dentro da própria caixa do CD. Quando você abre o álbum, metaforicamente também está abrindo a caixa e libertando aquilo que estava aprisionado. Ou seja, a história não termina quando o disco acaba. Ela termina quando você percebe que também participou dela.
No fim das contas, Dance and Laugh Amongst the Rotten está entre os trabalhos em que o Carach Angren mais claramente assume sua identidade de “cinema de horror em forma de black metal”. Piano, violinos, coros, orquestrações, efeitos sonoros, diálogos, mudanças bruscas de dinâmica e vocais extremos são utilizados não apenas para criar peso, mas para contar uma história.
Ardek praticamente constrói uma trilha sonora para um filme que não existe, enquanto Seregor funciona como narrador e personagem, conduzindo o ouvinte pelos acontecimentos, e Namtar fornece a sustentação brutal da bateria. O resultado é menos um simples álbum de black metal sinfônico e mais uma experiência narrativa: você coloca o disco para tocar, abre a caixa e, quando percebe, já está dentro do filme.
Nota: 8











