terça-feira, 8 de setembro de 2026

POLÍTICA

REPUBLIQUETA DAS BANANAS


Um desordeiro efeito dominó vem tomando conta do universo político brasileiro nos últimos dias. Enquanto a esquerda se movimenta com unhas e dentes na disputa pelo poder, setores do sistema judiciário também entram no centro das controvérsias, alimentando ainda mais a sensação de instabilidade institucional.

Um dia cai um delegado; no outro cai juízes, ministros, deputados, senadores... a sequência não tem fim. A cada nova queda, o jogo de poder desestabiliza o cenário político por completo, até alcançar a peça mais importante do tabuleiro: o presidente da republiqueta.

POLÍTICA

PEIXES FRESCOS NAS DISPUTAS POR PODER


No embate político entre direita e esquerda nestas eleições, em meio a crises jurídicas, conflitos institucionais e questionamentos sobre a própria constitucionalidade de determinadas decisões, o povo parece caminhar sobre uma corda bamba, oscilando de um lado para o outro, muitas vezes envolto em uma cortina de fumaça que dificulta enxergar, com clareza, os escândalos e as controvérsias que cercam aqueles que administram o dinheiro público nacional.

Na disputa pelo poder, o povão também se torna a grande presa dessa pescaria política. É fisgado pelos discursos e pelas narrativas dos meios de comunicação alinhados, de diferentes formas, aos interesses da direita ou da esquerda. Muitas vezes, sob o argumento da informação, a comunicação acaba funcionando como instrumento de disputa, influência e desorientação do eleitor, atuando diretamente sobre sua percepção da realidade.

Entre manchetes, algoritmos, discursos inflamados e verdades convenientemente selecionadas, o cidadão permanece no centro do jogo, mas nem sempre no controle dele. E, enquanto direita e esquerda disputam corações, mentes e votos, o país continua mergulhado em crises que parecem se repetir, alimentando um ciclo de polarização, desconfiança e pouca prosperidade — enquanto a justiça, tantas vezes prometida, permanece como uma espécie de horizonte distante.

POLÍTICA

O OPORTUNISMO DAS REELEIÇÕES

As pessoas não percebem — ou fingem não perceber — que, muitas vezes, a reeleição acaba servindo mais à manutenção do poder do que à transformação da realidade. Basta colocar no papel as promessas de campanha e comparar com o que, de fato, foi realizado: quase sempre, muito do que se prometeu não se converte em desenvolvimento social concreto durante os anos seguintes de permanência no poder municipal, estadual ou presidencial.

No Brasil, a reeleição parece ter se transformado em uma oportunidade política de reapresentar a esperança, muitas vezes sustentada por promessas que não se cumprem e discursos que se renovam a cada eleição.

Enquanto isso, o povo continua preso à crença nos supostos “salvadores”, perpetuando no poder aqueles que fazem da política uma espécie de farra com os recursos públicos — enquanto seguem decidindo, de cima para baixo, os destinos de uma população que permanece à margem do desenvolvimento que lhe foi prometido.

POLÍTICA

Um país dividido numa realidade distorcida


Na visão do povo, a insanidade política brasileira, dividida entre direita e esquerda, revela um país que parece sobreviver em um universo paralelo, mergulhado em uma realidade divergente, insana e marcada por uma Justiça que, aos olhos de muitos, perdeu a capacidade de inspirar confiança. Uma realidade fragmentada pela corrupção que atravessa os dois lados da moeda.

O Judiciário (OAB, $TF...), frequentemente acusado de agir sob forte influência política, tornou-se protagonista de alguns dos processos mais controversos e repercutidos na mídia. Enquanto isso, a politicagem parece dominar as contas públicas, acomodando-se em um sistema blindado por interesses, alianças e conveniências que alcançam lideranças do Congresso e setores que movimentam a economia e o poder no país.

Em outras palavras, o que resta ao cidadão é a sensação de sobreviver em uma realidade distorcida, na qual fatos são convenientemente omitidos, responsabilidades são relativizadas e o desenvolvimento social parece afundar em uma embarcação cada vez mais pesada, levando milhões de brasileiros às profundezas da desesperança.

E é inadmissível observar tanta gente simplesmente não dar a mínima para tudo isso. Enquanto cidadãos trabalham, pagam impostos e lutam para sobreviver, aqueles que saqueiam o dinheiro público — de qualquer lado do espectro político — parecem rir da nossa cara, acumulando fortunas para si enquanto a nação acumula problemas, desigualdade e miséria.

Mais ridículo ainda é ver carros adesivados com candidatos que carregam discursos de mudança, mas que, para muitos, representam justamente a continuidade dessa velha estrutura de poder. Candidatos disputando seu lugar na farra, buscando uma cadeira no mesmo sistema que dizem combater.

Gente, acordem. Não se trata de direita ou esquerda. Trata-se de não entregar o próprio futuro — e o futuro das próximas gerações — nas mãos de quem transforma o dinheiro público em patrimônio particular e o poder em instrumento de sobrevivência política.

Salvem a própria pele. Questionem. Fiscalizem. Não sejam massa de manobra. Porque, no fim das contas, quem paga a conta da corrupção somos nós. E quem herdará as consequências serão nossos filhos.

segunda-feira, 7 de setembro de 2026

POLÍTICA

INVOLUÇÃO SOCIAL

Na evolução humana, muitos erros foram cometidos até chegarmos aos acertos. E isso vale para tudo, possibilitando a todos um direcionamento mais seguro na vida a partir de teorias, metodologias, tentativas e erros, da busca por alternativas, do registro de experiências e do desenvolvimento das ciências, das regras, dos regimentos e das leis.

Todavia, existe uma contradição nessa “evolução", no que podemos avançar extraordinariamente em ciência, tecnologia e organização social sem que todos avancem na mesma proporção em ética, empatia e responsabilidade.

Então, por que, ainda hoje, imperam o desrespeito, a sujeira, a covardia, a indiferença social, a ganância e tantas outras mazelas num mundo que já deveria estar tão evoluído?

De que adianta uma humanidade capaz de conquistar outros planetas, desenvolver inteligências artificiais e realizar feitos extraordinários se, em muitos aspectos, ainda não aprendeu sequer a respeitar o outro?

Talvez tenhamos evoluído muito naquilo que conseguimos fazer, mas ainda pouco naquilo que deveríamos ser.

quarta-feira, 2 de setembro de 2026

LITERATURA

Escritores de Roraima ganham destaque na Bienal do Livro de São Paulo 2026

Por Michel Sales

Literatura roraimense marca presença em um dos maiores eventos literários do país e leva ao público nacional diferentes vozes, histórias e perspectivas da Amazônia


A literatura produzida em Roraima ganha espaço e visibilidade nacional durante a 28ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo, que reúne escritores independentes de diferentes regiões do Brasil. Entre os dias 4 e 13 de setembro, autores roraimenses estarão presentes no espaço dedicado à produção independente, na rua J, estande 76, no pavilhão da Bienal.

Representando a literatura regional, participam Pétira Santos, Willy Rilke, Márcia Iully, Maria do Carmo e Rômulo Sena. A presença do grupo reforça a diversidade e a força da produção literária amazônica, levando ao público obras, narrativas e perspectivas construídas a partir da realidade e da cultura de Roraima.

Entre os destaques está a escritora Pétira Santos, que terá uma programação especial ao longo da Bienal. A autora participará de exposição de poemas, lançamentos de antologias e de sua obra “Mistérios em Cores: O Legado Ancestral da Pedra Pintada”, além de integrar a programação “Melhores Poetas”. Segundo a autora, “O livro “Mistérios em Cores” conduz o leitor por uma aventura pelos lavrados de Roraima e aborda a memória dos povos originários, a identidade regional e a importância da preservação histórica, cultural e ambiental, valorizando narrativas indígenas e saberes ancestrais”, destacou.

A participação de Pétira também será marcada por reconhecimentos. No dia 6 de setembro, a escritora receberá o Prêmio Revelação Bienal 2026. Já no dia 12 de setembro, será homenageada com o Prêmio Mulher Destaque da Bienal 2026, em reconhecimento à sua contribuição para a literatura e sua atuação cultural.

Com diferentes trajetórias, obras e perspectivas, Pétira Santos, Willy Rilke, Márcia Iully, Maria do Carmo e Rômulo Sena levam para São Paulo a produção literária de Roraima, ajudando a ampliar os espaços de representação da literatura amazônica no cenário nacional.

segunda-feira, 31 de agosto de 2026

LEGADO DE AÇO

Os grandes vocalistas do metal brasileiro

Por Michel Sales


O heavy metal brasileiro construiu, ao longo das décadas, uma identidade própria e um legado que ultrapassou fronteiras. Bandas como Viper, Angra, Shaman, Soulspell, Dark Avenger, Thoten e tantas outras ajudaram a colocar o Brasil na rota internacional do gênero, rompendo barreiras geográficas, culturais e musicais. Mas essa história não foi construída apenas por guitarras, riffs e baterias. Por trás de algumas das obras mais importantes do nosso metal estão vozes que se tornaram verdadeiras assinaturas sonoras.

Algumas carregavam a grandiosidade da música erudita. Outras traziam agressividade, dramaticidade e potência. Houve ainda aquelas capazes de transformar uma interpretação em personagem, narrativa e espetáculo. E, infelizmente, parte desses grandes nomes nos deixou cedo demais. Este artigo é uma lembrança — e também uma tentativa de dimensionar — o legado de três vocalistas que ajudaram a escrever capítulos importantes do heavy metal brasileiro: Mário Linhares, André Matos e Renato Tribuzy.

MÁRIO LINHARES

Mário Linhares foi uma das vozes mais marcantes do Dark Avenger, banda que ajudou a construir uma das vertentes mais épicas e conceituais do heavy metal brasileiro. Nascido em Fortaleza (CE), em 1º de junho de 1972, foi em Brasília que desenvolveu sua trajetória musical, iniciada nos anos 1990 e interrompida precocemente em 2017. Seu primeiro grande cartão de visitas foi o álbum Dark Avenger, lançado em 1995. Mas foi com Tales of Avalon: The Terror, de 2001, que a banda alcançou uma projeção ainda maior e Mário passou a ser reconhecido como uma das grandes vozes do metal nacional.

E havia algo muito particular em sua interpretação. Mário reunia agudos extremamente altos e cortantes, potência, ataque agressivo, vibrato característico e uma impressionante capacidade de alternar entre a dramaticidade épica e a fúria do heavy metal. Sua voz não servia apenas para acompanhar as músicas. Ela fazia parte da narrativa. O próprio Mário apontava entre suas influências nomes como Eric Adams, do Manowar, além de Helloween, Judas Priest, Iron Maiden e Metal Church. A partir dessas referências, procurava absorver diferentes técnicas e transformá-las em uma identidade própria.

O resultado era um vocalista que parecia ter nascido para o universo criado pelo Dark Avenger. A banda conseguiu construir um heavy metal épico e conceitual sem simplesmente reproduzir a fórmula do power metal europeu. Suas músicas mergulhavam em personagens, batalhas, reis, cavaleiros, mitologia, tragédia e heroísmo. Nesse cenário, Mário funcionava quase como o narrador de uma fantasia medieval sombria. Sua interpretação dava voz aos personagens e dimensão às histórias. Se o Dark Avenger construía o cenário, Mário era quem colocava os guerreiros dentro dele.

Além do Dark Avenger, participou de projetos como Harllequin, Heaven's Guardian, Khallice, Seventh Seal e Soulspell, ampliando ainda mais sua contribuição ao metal brasileiro. Em 2017, quando ainda atravessava uma fase produtiva da carreira, Mário morreu aos 45 anos, em Taguatinga (DF), vítima de um grave problema cardíaco. Naquele mesmo período, o Dark Avenger havia lançado The Beloved Bones: Hell, trabalho conceitual que recebeu atenção da imprensa especializada e apontava para novos capítulos da banda. A história, porém, foi interrompida. Ficou a voz. Ficou a obra. E ficou a sensação de que Mário Linhares ainda tinha muito a oferecer ao metal brasileiro.

ANDRÉ MATOS

Se Mário Linhares transformava o heavy metal em uma narrativa épica, André Matos levou o gênero para uma dimensão em que metal e música erudita podiam coexistir naturalmente. Mais do que vocalista do Viper, Angra e Shaman, André foi compositor, pianista, arranjador e regente. Sua formação musical foi fundamental para compreender a sofisticação de sua obra. Morreu em 8 de junho de 2019, aos 47 anos. 

Sua história começou muito cedo. Em 1985, aos 13 anos, participou da fundação do Viper. A banda lançou Soldiers of Sunrise, em 1987, e Theatre of Fate, em 1989 — este último considerado um dos trabalhos fundamentais do heavy metal brasileiro. E existe uma ironia interessante em sua trajetória: André sequer pretendia ser vocalista. Seu instrumento principal era o piano/teclado. Acabou assumindo os vocais e, anos depois, se transformaria em uma das vozes mais reconhecidas do metal mundial.

Em 1991, participou da fundação do Angra. O resultado seria Angels Cry, lançado em 1993. Ali estava uma mudança importante. André não queria simplesmente reproduzir o heavy metal europeu. Sua formação em Regência Orquestral e Composição Musical, somada aos estudos de canto lírico e piano erudito, permitia incorporar harmonia clássica, coros, piano, arranjos orquestrais e estruturas sofisticadas ao metal.

Depois veio Holy Land, em 1996. Talvez seja nesse álbum que a identidade artística do primeiro Angra apareça de maneira mais completa: metal, música clássica e elementos brasileiros convivendo dentro de uma mesma obra. André entendia música para além do metal. E isso também se refletia em sua voz. Tecnicamente, era um vocalista impressionante. Sua assinatura estava nos agudos, mas sua capacidade vocal não se limitava a eles. Tinha grande extensão, emissão clara, facilidade nos registros altos, vibrato característico, excelente articulação e forte influência do canto lírico.

Mas havia uma característica ainda mais importante: André não precisava soar pesado para ser poderoso. Sua voz era mais lírica, elegante e melódica. Mesmo nos registros mais altos, havia uma sensação quase operística. E talvez seja aí que esteja uma das diferenças mais interessantes entre ele e Mário Linhares. Mário parecia um guerreiro cantando no meio da batalha. André parecia um personagem de uma ópera de heavy metal. Depois de deixar o Angra, em 2000, André formou o Shaman ao lado de Luis Mariutti e Ricardo Confessori. Em 2002, veio Ritual, um dos trabalhos fundamentais de sua carreira.

Ali estava um André mais maduro, com composições progressivas e uma voz menos presa às fórmulas tradicionais do power metal. "For Tomorrow", "Fairy Tale" e, principalmente, "Here I Am" são exemplos essenciais para compreender sua evolução. A partir de 2006, iniciou uma nova fase com sua banda solo, lançando Time to Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn of the Lights (2012). Também participou de projetos internacionais como Avantasia, Virgo e Symfonia.

Existe ainda um capítulo curioso de sua história: quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden, André afirmou posteriormente que chegou a ser considerado para o posto e teria ficado entre os finalistas. O cargo acabou ficando com Blaze Bayley. É uma daquelas hipóteses que alimentam a imaginação dos fãs: como teria sido o Iron Maiden com André Matos? Nunca saberemos.

André morreu em 2019, vítima de um infarto agudo do miocárdio. Estava ainda em atividade e havia voltado a se apresentar com a formação clássica do Shaman. Sua morte encerrou uma trajetória, mas não diminuiu seu tamanho. André Matos foi um músico completo que ajudou a provar que o heavy metal brasileiro poderia ser sofisticado sem perder peso, técnico sem perder emoção e erudito sem perder identidade.

RENATO TRIBUZY

Renato Tribuzy ocupa um espaço diferente nessa história. Sua importância não está apenas na quantidade de discos lançados, mas na dimensão do projeto que conseguiu construir e na capacidade de colocar um músico brasileiro lado a lado com alguns dos maiores nomes do heavy metal mundial. Renato começou como guitarrista. Sua transformação em vocalista aconteceu quase por acaso. Sua banda, Horizon, procurava um cantor e, durante um ensaio, Renato começou a cantar I Want Out, do Helloween, apenas para servir como referência aos músicos.

O resultado foi tão convincente que o baterista teria decretado: "achamos o vocalista". Depois veio o Thoten, banda que misturava o heavy metal dos anos 1980 com elementos progressivos. Com ela, Renato gravou Beyond Tomorrow e realizou turnês pela Europa e América do Sul. Mas foi em 2005 que seu nome ganhou projeção internacional. Naquele ano, Renato lançou Execution. E o elenco era impressionante. Bruce Dickinson, do Iron Maiden. Michael Kiske, do Helloween. Ralf Scheepers e Mat Sinner, do Primal Fear. Kiko Loureiro, do Angra. Roland Grapow, ex-Helloween e integrante do Masterplan. Roy Z, produtor, guitarrista e parceiro musical de Bruce Dickinson.

Seria fácil transformar Execution apenas em uma coleção de participações especiais. Mas esse não era o objetivo. Renato escreveu as músicas pensando na contribuição de cada convidado. Um dos exemplos mais claros é "Beast in the Light", composta especificamente para Bruce Dickinson. E o mais interessante é que Renato não desaparece diante de seus convidados. Ele mantém sua própria identidade. Sua voz é aberta, potente e teatral, trabalhando com médios fortes, graves encorpados, agudos agressivos, drives, voz limpa e diferentes níveis de intensidade.

E mais do que alcançar notas, Renato procurava interpretar. Ele próprio já explicou que queria colocar alma nas músicas de Execution, fazendo com que a voz transmitisse sofrimento, raiva ou diversão de acordo com cada composição. Isso aparece em faixas como "Execution", "Aggressive", "Lake of Sins" e "Web of Life". E talvez esteja justamente aí o maior mérito do álbum. Apesar da presença de alguns dos maiores nomes do metal mundial, Execution não depende exclusivamente deles para funcionar. As músicas permanecem. A voz de Renato permanece. E o projeto ganha identidade própria. Há ainda um aspecto particularmente importante: Renato conseguiu demonstrar que…

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