terça-feira, 22 de setembro de 2026

CARACH ANGREN

O horror dentro da caixa em Dance and Laugh Amongst the Rotten

Por Michel Sales


Um grupo de jovens se reúne para brincar com um tabuleiro Ouija e tentar estabelecer contato com os mortos. A entidade que responde diz chamar-se Charlie e, a princípio, apresenta-se como uma espécie de amigo. Só que a brincadeira rapidamente toma outro rumo. As mensagens ficam ameaçadoras, o espírito revela uma natureza cada vez mais hostil e o ritual termina em desastre. O pior: o grupo não consegue fechar adequadamente o portal que abriu.

Esse é o ponto de partida de Dance and Laugh Amongst the Rotten (2017), quinto álbum do Carach Angren e um dos trabalhos em que a banda retoma de maneira mais evidente seu universo de horror, fantasmas, possessão, morte e fenômenos sobrenaturais, depois da abordagem mais contemporânea e brutal de This Is No Fairytale (2015).

O disco funciona como uma coleção de pesadelos interligados por uma mesma atmosfera. É como se cada faixa fosse uma cena de um filme de terror, com personagens, objetos amaldiçoados e acontecimentos sobrenaturais que pouco a pouco vão formando um universo.

“Opening” cumpre exatamente esse papel: é a abertura de um filme de horror. Piano, cordas e orquestração criam aquela sensação de que alguma coisa antiga e proibida está sendo descoberta. É como abrir uma caixa que deveria permanecer fechada. E, logo depois, vem “Charlie”, colocando o ouvinte diante da entidade que desencadeia boa parte do pesadelo.

Em “Blood Queen”, surge uma figura espectral ligada à morte e à violência. Musicalmente, é uma das faixas mais cinematográficas do álbum, combinando mudanças de andamento, orquestrações grandiosas, vocais extremos e uma atmosfera digna de um filme de horror gótico. A música soa quase majestosa, enquanto a história contada é grotesca. É justamente esse contraste que torna a faixa tão interessante.

“Charles Francis Coghlan” traz uma das histórias mais curiosas do disco porque parte de um acontecimento real. Charles Francis Coghlan foi um ator canadense que morreu em 1899 e foi enterrado em Galveston, no Texas. Anos depois, um furacão destruiu o cemitério e seu caixão acabou sendo levado pelo mar. O corpo foi encontrado posteriormente na costa da Ilha do Príncipe Eduardo, no Canadá, região próxima de onde Coghlan havia nascido.

O Carach Angren transforma esse episódio insólito em uma espécie de balada fantasmagórica sobre um morto que literalmente retorna pelo oceano. É um excelente exemplo da capacidade da banda de pegar um acontecimento histórico e transformá-lo em matéria-prima para o horror.

Em “Song for the Dead”, o álbum assume um tom quase elegíaco. É menos uma explosão de terror e mais uma espécie de canção para os mortos, marcada por uma atmosfera teatral e melancólica. As orquestrações ganham ainda mais espaço e ajudam a construir um dos momentos mais sombrios e contemplativos do disco.

“In de Naam van de Duivel”, cujo título significa “Em Nome do Diabo”, em holandês, mergulha diretamente na temática demoníaca e religiosa. A faixa mantém a lógica do álbum: histórias aparentemente independentes que compartilham o mesmo universo de morte, ocultismo e sobrenatural. Já “Pitch Black Box” apresenta a famosa “caixa preta” como um objeto maldito, um recipiente para aquilo que deveria permanecer escondido. E aqui está uma das grandes sacadas conceituais do álbum: o objeto físico que o ouvinte tem nas mãos passa a fazer parte da própria narrativa.

Em “The Possession Process”, a garota que começou brincando com o Ouija vai sendo progressivamente dominada pelo mundo espiritual que ajudou a abrir. É o momento em que a brincadeira deixa definitivamente de ser brincadeira. O sobrenatural deixa de estar do outro lado do tabuleiro e passa a ocupar o corpo e a realidade dos personagens.

O pesadelo chega ao fim com “Three Times Thunder Strikes”, uma conclusão explosiva para toda essa sequência de acontecimentos. Ao longo do disco, a simples curiosidade pelo sobrenatural vai se transformando em algo completamente fora de controle. E é justamente aí que o conceito do álbum ganha sua melhor sacada: os espíritos estariam presos dentro da própria caixa do CD. Quando você abre o álbum, metaforicamente também está abrindo a caixa e libertando aquilo que estava aprisionado. Ou seja, a história não termina quando o disco acaba. Ela termina quando você percebe que também participou dela.

No fim das contas, Dance and Laugh Amongst the Rotten está entre os trabalhos em que o Carach Angren mais claramente assume sua identidade de “cinema de horror em forma de black metal”. Piano, violinos, coros, orquestrações, efeitos sonoros, diálogos, mudanças bruscas de dinâmica e vocais extremos são utilizados não apenas para criar peso, mas para contar uma história.

Ardek praticamente constrói uma trilha sonora para um filme que não existe, enquanto Seregor funciona como narrador e personagem, conduzindo o ouvinte pelos acontecimentos, e Namtar fornece a sustentação brutal da bateria. O resultado é menos um simples álbum de black metal sinfônico e mais uma experiência narrativa: você coloca o disco para tocar, abre a caixa e, quando percebe, já está dentro do filme.

Nota: 8

segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CARACH ANGREN

O preço de brincar com a morte em Franckensteina Strataemontanus

Por Michel Sales

 

O sexto petardo do Carach Angren, Franckensteina Strataemontanus (2020), é um álbum que reconta Frankenstein, de Mary Shelley, mas partindo do “Frankenstein real”, o alemão Johann Konrad Dippel, transformando sua história numa narrativa de horror, alquimia, necromancia, ciência proibida e pacto demoníaco.

O ponto de partida é Johann Konrad Dippel (1673–1734), que foi um teólogo, médico, alquimista e estudioso alemão associado ao Castelo Frankenstein, perto de Darmstadt. Existe uma teoria — não comprovada historicamente — de que Dippel teria sido uma das inspirações para Victor Frankenstein. A própria banda pesquisou essa possibilidade e a incorporou à sua narrativa.

Antes de pesquisar Dippel, Ardek teve um pesadelo no qual aparecia um homem velho, de aparência sinistra, dentro de uma espécie de casa/castelo antigo. Depois, ao encontrar uma imagem de Dippel durante sua pesquisa, percebeu que o rosto era muito semelhante ao homem que havia visto no sonho.

Assim, a narrativa do Carach Angren imagina Dippel como um homem obcecado pela possibilidade de vencer a morte e criar ou restaurar a vida. A ciência, a alquimia e o conhecimento não são suficientes. Então ele atravessa uma fronteira cada vez mais perigosa: ciência, alquimia, ocultismo, necromancia, pacto demoníaco.

Em entrevista, Seregor explicou que, na versão criada pela banda, Dippel abandona sua fé e, depois de não conseguir alcançar seus objetivos por meio da ciência e de Deus, recorre ao Diabo em busca da imortalidade. Ou seja, o verdadeiro “monstro” não é simplesmente uma criatura ressuscitada. É o homem que acredita que pode ultrapassar todos os limites da natureza.

Segundo o próprio Carach Angren, “Franckensteina Strataemontanus” era uma designação utilizada por Dippel em seus trabalhos universitários. A banda brinca justamente com a ideia de que esse nome estaria na origem da palavra Frankenstein. Por isso o álbum funciona quase como uma espécie de “Frankenstein antes de Frankenstein”. A banda pega a figura histórica que teria alimentado a lenda e constrói sua própria versão da história.

O grupo não quis fazer uma biografia histórica de Dippel. Eles mesmos explicaram que precisaram misturar fatos, lendas e ficção para construir uma narrativa que tivesse a cara do Carach Angren. Além de Dippel, aparecem elementos de outras histórias e figuras do imaginário alemão, como o Vampiro de Nuremberg. Isso é importante porque explica a atmosfera do disco.

Existe uma camada interessante no conceito: quem é o monstro? O próprio Seregor disse que eles enxergavam o álbum como um “monstro” criado pela própria banda. Isso cria um jogo de espelhos: Dippel cria/quer criar um monstro. O Carach Angren cria um álbum-monstro sobre Dippel. E, no fundo, ambos estão falando sobre criação, morte e a tentativa humana de ultrapassar seus próprios limites.

O conceito também influenciou diretamente a sonoridade. A banda incorporou elementos mais industriais, mecânicos e eletrônicos, além da habitual orquestração, justamente para representar esse encontro entre ciência, máquinas, alquimia e horror. Por isso Franckensteina Strataemontanus soa, em vários momentos, como uma espécie de laboratório amaldiçoado em funcionamento: teclados, orquestrações, ruídos mecânicos, atmosferas cinematográficas e o black metal teatral do grupo. A própria faixa-título resume perfeitamente a transformação: galvanismo, alquimia, ciência, feitiçaria, carne, ossos, necromancia e Mephistopheles aparecem misturados na narrativa.

No mais, Franckensteina Strataemontanus é a história de um homem que quer vencer a morte através do conhecimento. Quando ciência, religião e razão não o conseguem entregar aquilo que deseja, ele mergulha no ocultismo e na necromancia, chegando ao pacto demoníaco. O “Frankenstein” do Carach Angren é sobre a obsessão humana de se tornar semelhante a Deus — e o preço de tentar fazê-lo.

Nota: 8

CARACH ANGREN

Sete histórias para um inferno

Por Michel Sales

 

A guerra é o cenário, mas o verdadeiro protagonista é o indivíduo destruído por ela. Esse é o mote de Where the Corpses Sink Forever (2012), terceiro álbum do Carach Angren e momento em que a banda leva sua fórmula de “filme de terror em forma de álbum” para um território muito mais humano, brutal e perturbador.

Depois de Death Came Through a Phantom Ship, os holandeses decidiram mergulhar em um universo ainda mais sombrio. O próprio Ardek explicou que este foi o primeiro álbum cujas histórias foram inteiramente criadas pela banda. A intenção era fugir da visão tradicional da guerra — grandes batalhas, exércitos, canhões e estratégias militares — para se concentrar no terror individual, nas pequenas tragédias e na devastação psicológica provocada pelo conflito.

O resultado é um álbum construído a partir de sete “visões de guerra”, atravessando referências à Primeira e à Segunda Guerra Mundial e à Guerra do Vietnã. Não existe uma narrativa linear. São histórias diferentes, conectadas por um mesmo universo de morte, loucura, sofrimento e sobrenatural.

Tudo começa com “An Ominous Recording”, uma das introduções mais perturbadoras da discografia da banda. A faixa funciona como o registro de uma execução. Um soldado recebe a ordem de matar sete prisioneiros de guerra. Os disparos são ouvidos, assim como a voz do militar descrevendo o que está acontecendo. Mas há algo profundamente errado naquela cena.

Os prisioneiros não reagem como seres humanos diante da morte. Eles parecem sorrir, como se soubessem de alguma coisa que o soldado desconhece. Aos poucos, a execução deixa de parecer um simples ato de guerra e ganha uma dimensão sobrenatural. Aqueles sete homens estão ligados a entidades demoníacas, e o soldado acaba condenado a um ciclo de sofrimento, revivendo eternamente o horror que ajudou a desencadear. É o primeiro sinal de que, neste álbum, a guerra não termina quando os tiros cessam.

A partir daí, cada faixa mergulha em uma situação diferente. “Lingering in an Imprint Haunting” trabalha justamente essa permanência do trauma: o passado não desaparece quando o combate termina. Ele permanece como uma marca, uma assombração psicológica que continua perseguindo quem sobreviveu.

Em “Bitte Tötet Mich” — “Por favor, matem-me” — o desespero chega ao limite. Um soldado deseja a própria morte e tenta escapar da existência por meio do suicídio. Só que, naquele universo, até a morte parece incapaz de oferecer libertação. O sofrimento transforma-se em uma prisão da qual não há saída.

E então surge uma das histórias mais bonitas e trágicas do disco: “The Funerary Dirge of a Violinist”. Aqui, o horror ganha uma dimensão quase poética. O protagonista é um violinista que tenta preservar sua música enquanto o mundo ao redor é destruído pela guerra. Ardek explicou que a ideia era justamente mostrar o indivíduo tentando manter sua expressão artística em um ambiente completamente hostil. O músico atravessa os campos devastados pelo conflito, tocando sua última melodia, até encontrar a morte. É uma imagem poderosa: enquanto homens empunham armas, alguém insiste em empunhar um violino. 

Depois vem “Sir John”, uma história ainda mais grotesca, na qual guerra, fome e degradação humana se transformam em horror corporal. A própria condição humana começa a apodrecer. E essa talvez seja uma das características mais fortes do álbum: não existe glamourização da batalha. Não existem heróis triunfantes, medalhas ou vitórias gloriosas. Existe gente enlouquecendo, morrendo, sofrendo e tentando encontrar alguma maneira de escapar.

Em “Spectral Infantry Battalions”, o sobrenatural retorna com força. A guerra deixa de ser apenas um acontecimento histórico e passa a produzir fantasmas. Soldados mortos continuam marchando, como se o conflito tivesse ultrapassado a própria morte. É justamente nessa mistura que o Carach Angren encontra sua força narrativa. A guerra real já é suficientemente monstruosa; a banda acrescenta demônios, aparições e maldições para transformar esse horror histórico em horror sobrenatural. 

“General Nightmare” leva essa ideia ainda mais longe. O título já apresenta a figura do “General Pesadelo”, uma presença militar que ultrapassa a condição de simples comandante e assume uma dimensão quase demoníaca. A guerra começa a parecer menos um acontecimento conduzido por homens e mais uma força monstruosa que consome todos aqueles que entram em seu caminho.

Em “Little Hector What Have You Done?”, o horror ganha outro elemento devastador: a infância. A presença de uma criança diante da violência da guerra cria um contraste brutal com o ambiente militar e com as atrocidades que cercam os personagens. Mais uma vez, o Carach Angren não precisa descrever uma grande batalha. Basta mostrar o que a guerra é capaz de fazer com um único indivíduo.

E então chegamos ao encerramento: “These Fields Are Lurking (Seven Pairs of Demon Eyes)”. A faixa final é fundamental para compreender a arquitetura do álbum. O título evoca campos onde algo permanece escondido, observando. E o subtítulo — “Seven Pairs of Demon Eyes” — devolve o ouvinte às sete figuras apresentadas no início. O álbum, então, parece fechar um círculo. Começamos com a execução dos sete prisioneiros e terminamos novamente diante da presença demoníaca associada a eles. A sensação é de que aquele horror não possui um verdadeiro fim. A história simplesmente retorna ao ponto de partida, condenada a continuar acontecendo.

Where the Corpses Sink Forever é, acima de tudo, um álbum sobre aquilo que a guerra faz com o ser humano. O Carach Angren pega um dos acontecimentos mais brutais da experiência humana e o transforma em uma narrativa de horror, misturando trauma, loucura, morte, fantasmas e demônios.

Se em Death Came Through a Phantom Ship a banda transformava uma antiga lenda marítima em pesadelo, aqui ela faz algo ainda mais perturbador: transforma a própria guerra em uma assombração. Os corpos afundam para sempre, mas as histórias não.

Nota: 10

sábado, 19 de setembro de 2026

THE MAGUS

O inferno é o caminho da sabedoria em Daemonosophia

Por Michel Sales 


Daemonosophia (2026), pedrada do The Magus, é mais um discaralhoooo simplesmente satânico — ou melhor, uma jornada rumo à “Demonhood”, uma busca de conhecimento e transformação pelo Infernal, em oposição ao Divino.

O título já entrega boa parte da proposta. “Daemonosophia” pode ser entendido como uma espécie de “sabedoria demoníaca” ou “sabedoria através do daemon”. Mas o conceito vai muito além da imagem de uma criatura sobrenatural maligna. Para The Magus, o Daemon representa uma dimensão interior, obscura e transgressora do ser humano. 

É justamente aí que o álbum começa a ficar mais interessante. Segundo o próprio músico, o Infernal seria mais autêntico e mais próximo da psique humana. Há, portanto, uma inversão deliberada da perspectiva religiosa tradicional: de um lado, Divino → verdade → salvação; do outro, Infernal → conhecimento → transformação. Não se trata simplesmente de “adorar o mal”, mas de mergulhar justamente naquilo que as estruturas religiosas tradicionais colocaram no território do proibido, do impuro e do demoníaco. O Inferno, aqui, deixa de ser apenas um destino de condenação e passa a funcionar como território de investigação.

E The Magus leva essa ideia ainda mais longe ao construir uma espécie de triângulo metafísico, formado por três forças: Lucifer/Samael → Vontade; Tiamat/Leviathan → Sabedoria; Satan/Belial → Ação. Lucifer/Samael ocupa o centro como aquele que possui a chave. De um lado estão Tiamat e Leviathan, associados à Sabedoria; do outro, Satan e Belial, ligados à Ação. A dinâmica é quase uma equação ocultista: Vontade → Sabedoria → Ação. Ou, colocando em termos mais diretos: querer conhecer → conhecer → agir e transformar. A Vontade coloca tudo em movimento. Por isso, Lucifer não aparece simplesmente como o “Diabo” da tradição cristã, mas assume uma função quase prometeica: aquele que possui a chave e abre aquilo que estava fechado.

Uma das frases que sintetizam o conceito do álbum é: “The Six are Three. The Unholy Trinity. The Three are One. The Absolute. São seis nomes — Lucifer, Samael, Tiamat, Leviathan, Satan e Belial —, mas eles se organizam em três princípios fundamentais: Vontade, Sabedoria e Ação. E esses três, por sua vez, formam uma unidade. É quase uma operação simbólica de redução: 6 → 3 → 1. Múltiplas faces, três forças fundamentais e, finalmente, o Absoluto. Daí também a ideia de “The Unholy Trinity”, uma espécie de espelho invertido da Santíssima Trindade cristã. Se a tradição religiosa estabelece uma estrutura sagrada voltada ao Divino, The Magus constrói sua própria trindade a partir do Infernal.

E essa inversão está presente em outro dos conceitos centrais do álbum: “The Truth lies Below, not Above.” Tradicionalmente, o conhecimento superior é associado ao alto: céu → Deus → iluminação → verdade. The Magus vira essa geometria de cabeça para baixo: abismo → Infernal → sombra → verdade. O “Below”, portanto, representa aquilo que foi reprimido, escondido ou considerado inferior. É uma descida ao subterrâneo da própria existência — uma investigação daquilo que a moral convencional manda rejeitar.

Nesse sentido, Daemonosophia dialoga com uma tradição muito mais ampla do pensamento ocultista: a possibilidade de que o conhecimento esteja justamente naquilo que foi colocado à margem, no proibido, na sombra, naquilo que não deveria ser tocado. E é aqui que o daemon como representação da psique ganha força. Se o Infernal está mais próximo da natureza humana, o daemon pode ser entendido como uma representação de desejos, impulsos, vontade, transgressão, instintos, conhecimento proibido, sombra, transformação e autonomia diante de uma autoridade transcendental.

Daemonosophia seria, então, uma espécie de “sabedoria da sombra”. Não necessariamente: “Vou me tornar mau.” Mas: “Vou descer até aquilo que foi chamado de mau e descobrir o que existe ali.” Essa perspectiva dá ao álbum uma dimensão psicológica que vai muito além da parafernália satânica. A própria descrição de Daemonosophia fala em uma “journey to Demonhood”. E isso pode ser entendido como o estágio final dessa jornada. Não basta conhecer o demônio. É preciso tornar-se aquilo que o símbolo representa. A trajetória poderia ser resumida assim: ignorância → conhecimento → vontade → ação → transformação. A “Demonhood”, portanto, seria uma espécie de autotransformação através do contato com o Infernal. É uma inversão completa da narrativa cristã tradicional, na qual aproximar-se do demoníaco representa a queda. Aqui, ocorre justamente o contrário: a descida é o caminho para o conhecimento.

E o repertório acompanha essa construção conceitual. Faixas como “Pater Noster”, “Pseudoprophetae”, “Daemonosophia”, “The Six in Three Is All One”, “The Era of Lucifer Rising”, “Magia Obscura”, “Amelia”, “The Chapel of Iniquities” e “The Pact” ajudam a construir esse universo sombrio, ritualístico e filosófico. “Pseudoprophetae”, por exemplo, aborda os falsos profetas, falsos messias, falsos feiticeiros e mentirosos. A ideia se encaixa perfeitamente na proposta geral do álbum: questionar aqueles que afirmam possuir a verdade absoluta.

No fim das contas, Daemonosophia pode ser encarado como uma espécie de mitologia filosófica da transgressão. É um disco que utiliza o imaginário satânico e ocultista não apenas para provocar — embora provocar faça parte da brincadeira —, mas para construir uma narrativa sobre conhecimento, vontade, sombra e transformação. E talvez a fórmula mais simples para resumir toda essa viagem seja: Daemonosophia = buscar a verdade descendo ao Infernal, transformar conhecimento em vontade e vontade em ação. 

É justamente essa estrutura que faz de Daemonosophia algo mais interessante do que uma simples coleção de referências satânicas. Por trás dos símbolos, demônios, abismos e trindades profanas existe uma ideia muito mais humana: para conhecer aquilo que somos, talvez seja necessário primeiro encarar aquilo que aprendemos a esconder.

Nota: 8,5

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

CARACH ANGREN

João, Maria e o inferno doméstico

Por Michel Sales 


This Is No Fairytale (2015), quarto álbum de estúdio do Carach Angren, está entre os trabalhos mais narrativos, sombrios e perturbadores da banda. O próprio título já entrega a proposta: “Isto não é nenhum conto de fadas”.

Os holandeses pegaram a estrutura de João e Maria (Hansel and Gretel) e a transportam para uma realidade contemporânea, muito mais cruel do que qualquer floresta encantada. Em vez de duas crianças abandonadas pelos pais por causa da fome, encontramos personagens tentando escapar de um ambiente familiar brutal, marcado por violência e abuso.

Ardek contou que Seregor lhe apresentou uma versão extremamente distorcida de Hansel and Gretel. A ideia era justamente inverter a lógica da história: as crianças fogem de casa porque o verdadeiro horror está lá dentro. A floresta, portanto, não é necessariamente o lugar mais assustador. A casa é.

O álbum se desenvolve praticamente como um filme de horror dividido em capítulos. “Once Upon a Time”, a introdução instrumental, estabelece imediatamente a atmosfera de conto de fadas. Em seguida, “There’s No Place Like Home” apresenta uma ironia macabra: não há lugar como o lar — mas aquele lar é justamente o inferno. Em “When Crows Tick on Windows”, o ambiente de terror doméstico ganha contornos ainda mais perturbadores. Já “Two Flies Flew into a Black Sugar Cobweb” transforma uma das imagens mais conhecidas de João e Maria — a casa feita de doces — em uma armadilha sinistra.

A narrativa mergulha em temas pesados como violência doméstica, alcoolismo, drogas, abuso sexual infantil, sequestro, suicídio e elementos sobrenaturais. Tudo é apresentado dentro dessa espécie de conto de fadas deformado, no qual a fantasia não serve para aliviar a realidade, mas para torná-la ainda mais perturbadora. E talvez essa seja a grande chave conceitual de This Is No Fairytale: realidade versus conto de fadas.

O Carach Angren parece contaminar o universo fantástico pela brutalidade do mundo real. No conto tradicional, temos crianças, floresta, bruxa, casa de doces e perigo. Aqui, a sequência é outra: crianças, casa abusiva, fuga, mundo exterior, elementos de conto de fadas, pesadelo e, finalmente, realidade. É como se a banda perguntasse o tempo inteiro: “Isso é um conto de fadas?” A resposta está no próprio título: não, não é.

Ardek explicou que essa ambiguidade era justamente parte da proposta: fazer o ouvinte oscilar entre a fantasia e a realidade, sem saber exatamente onde termina uma e começa a outra. Daí a força do título e de toda a concepção narrativa do álbum.

Musicalmente, o horror de This Is No Fairytale também se distancia um pouco da atmosfera predominantemente sobrenatural de trabalhos anteriores. Aqui, o terror é muito mais humano e psicológico.

Ardek já explicou que o processo de composição funcionava quase como a criação da trilha sonora de um filme. Seregor apresentava a história; Ardek imaginava as cenas e transformava aquelas imagens em música. O resultado é um álbum que parece acompanhar visualmente cada acontecimento da narrativa.

E, na bolachinha, encontramos um verdadeiro arsenal: black metal agressivo, orquestrações grandiosas, cordas, piano, mudanças bruscas de atmosfera, passagens cinematográficas e vocais carregados de teatralidade, muitas vezes funcionando quase como uma narração. É como se o Carach Angren tivesse composto a trilha sonora de um filme de horror que nunca foi filmado.

Em This Is No Fairytale, a estrutura fantástica não é utilizada para nos afastar da realidade, mas justamente para nos obrigar a encará-la. O conto de fadas deixa de ser uma história sobre monstros escondidos na floresta e passa a ser uma metáfora para os monstros que vivem dentro de casa. E é justamente essa inversão — transformar fantasia em pesadelo e realidade em horror — que faz deste disco uma experiência tão perturbadora e, conceitualmente, tão interessante.

Nota: 10

CARACH ANGREN

Entre na floresta por sua conta e risco em Lammendam

Por Michel Sales


A fórmula dos discos do Carach Angren é tão somente aterrorizar os ouvintes. Descobri isso depois de apreciar o inigualável e nefasto Where the Corpses Sink Forever (2012). Desde então, mergulhei de cabeça na discografia desses holandeses sinistros, tentando assimilar cada vez mais esse lado obscuro, teatral e macabro de sua música.

Lammendam (2008) é um disco peculiarmente sinfônico e já mostra claramente a receita do Carach Angren lidando com o black metal atmosférico, a música clássica, a teatralidade e as histórias tenebrosas. Aqui, o horror nas letras se conecta com a construção das músicas. A história da bolachinha funciona praticamente como a trilha sonora de um filme de terror, num conceito que gira em torno da lenda de Lammendam/Leiffartshof, ligada às florestas de Schinveld, no sul dos Países Baixos. Por lá, segundo a lenda, uma misteriosa “Dama Branca” assombra a região. E o título da faixa final, *La Malédiction de la Dame Blanche*, entrega de bandeja a importância dessa figura para toda a trama.

A banda resolveu buscar inspiração numa lenda de seu próprio território, em vez de ficar naquela velha fórmula de satanismo, mitologia nórdica ou Tolkien, tão comum no metal extremo. O Carach Angren pega uma história local e transforma tudo em um conto sombrio, cheio de fantasmas, mortes e acontecimentos sobrenaturais.

Musicalmente, o disco é uma montanha-russa de calmaria, tensão, explosão, narrativa e violência sob guitarras, teclados, piano e violinos que aparecem se alternando e criando climas sinistros, anunciando que alguma coisa maléfica vai acontecer. E os vocais de Dennis “Seregor” Droomers são fundamentais nessa brincadeira, interpretando tudo passo a passo, conduzindo o ouvinte pela história. E ainda temos inglês, holandês, alemão e francês aparecendo em diferentes momentos, o que deixa tudo com uma cara ainda mais estranha e europeia.

É justamente aí que o Carach Angren mostra sua personalidade. Os teclados e os elementos clássicos ajudam a criar as cenas, aumentar a tensão e dar aquela sensação de que estamos acompanhando uma história macabra em tempo real. No mais, Lammendam é o cartão de visitas e o manifesto estético da banda. Portanto, apague as luzes e entre na floresta ouvindo sem moderação esse discaralhoooo. E não pule faixa nenhuma, pois as músicas se conectam quando apreciadas como uma obra única.

Nota: 8,5

terça-feira, 8 de setembro de 2026

POLÍTICA

OS SUPERPODERES DOS $UPER $UPREMO$

Fraquim — o líder mais enrolado e folgado de todos. Seu superpoder é ganhar tempo, permanecer em cima do muro e assistir ao circo pegar fogo sem jamais se comprometer com o incêndio.

Imoraes — de toga obscura, olhar sinistro e discurso ameaçador, seu poder consiste em transformar qualquer processo num labirinto jurídico, alimentando a discórdia e a hipocrisia.

Gil Merdas — o grande garantidor da “inconstitucionalidade nacional”. Seu superpoder é inverter a lógica dos fatos até que tudo pareça o contrário do que era. Lula, se antes era “ladrão”, depois das reviravoltas jurídicas vira apenas... um molusco.

Toffolão — seu superpoder é transformar dúvidas constitucionais em certezas monocráticas e, quando a sujeira aparece, demonstrar a incrível habilidade de empurrá-la para debaixo do tapete.

Dino da Silva Sauro — ex-ator das animações da TV Colosso, chef de cozinha nas horas vagas e especialista em derrubar árvores na floresta da pica dura. Seu maior feito? Ter encontrado uma vaga no seleto clube da luta do $TF.

Morgada LeFei — a vilã mais frágil da fraternidade. Seus poderes são facilmente absorvidos pelos demais carrascos do colarinho branco. Quando sempre se vê impotente, finge que ainda possui forças, mas acaba desaparecendo discretamente pelos becos do Palácio da Injustiça.

Criszannin — defensor dos mentirosos. Suas habilidades impressionam a plateia, que permanece horas no picadeiro, hipnotizada e ludibriada por discursos sebosos, enquanto ele desfila sua retórica pelo espetáculo.

Gonetty — seus poderes de PGR são baseados na dissimulação absoluta. Age como uma mamba-negra, espreitando nas sombras e aguardando o momento certo para desferir seu bote — sempre de maneira sorrateira, calculada e covarde.

CONSTITUIÇÃO PRA QUÊ?

Se um colegiado jurídico toma uma decisão acertada e justa, mas um único ministro pode simplesmente barrá-la com uma canetada monocrática, qual é, afinal, o peso das decisões colegiadas?

A sede de poder no Brasil é gritante. Há quem pareça mais interessado em concentrar autoridade e impor sua própria visão do que em respeitar os limites institucionais.

E, nesse jogo de egos, ideologias e interesses, quem acaba ficando no meio do caminho é o cidadão.

Oremos!

MAÇÃS PODRES

A corrupção no Brasil, nos últimos anos, vem tomando protagonismo a cada eleição, principalmente com a esquerda no poder, quando percebemos alguns dos casos mais horrendos do desgoverno nacional.

Enquanto isso, a população continua em meio às mazelas, servindo a um sistema que apenas articula injustiças e corrói o orçamento público, promovendo riquezas pessoais e entregando o caos ao povo.

Hoje, com Lula perpetuado no poder, observamos um Judiciário fajuto que o reconduziu à Presidência para continuar ludibriando os pobres com hipocrisia. E, com Lula, toda uma gama de politiqueiros, além de um sistema judiciário blindado, tem favorecido a corrupção incessante, desgastando as forças do povo para reverter decisões fraudulentas.

No mais, o povo continua pagando muito caro para mantê-los no poder e pagará ainda mais pelo resto da vida.

REPUBLIQUETA DAS BANANAS

Um desordeiro efeito dominó vem tomando conta do universo político brasileiro nos últimos dias. Enquanto a esquerda se movimenta com unhas e dentes na disputa pelo poder, setores do sistema judiciário também entram no centro das controvérsias, alimentando ainda mais a sensação de instabilidade institucional.

Um dia cai um delegado; no outro cai juízes, ministros, deputados, senadores... a sequência não tem fim. A cada nova queda, o jogo de poder desestabiliza o cenário político por completo, até alcançar a peça mais importante do tabuleiro: o presidente da republiqueta.

CARACH ANGREN

O horror dentro da caixa em Dance and Laugh Amongst the Rotten Por Michel Sales Um grupo de jovens se reúne para brincar com um tabuleiro Ou...