Os grandes vocalistas do metal brasileiro
Por Michel Sales
O heavy metal brasileiro construiu, ao longo das décadas, uma identidade própria e um legado que ultrapassou fronteiras. Bandas como Viper, Angra, Shaman, Soulspell, Dark Avenger, Thoten e tantas outras ajudaram a colocar o Brasil na rota internacional do gênero, rompendo barreiras geográficas, culturais e musicais. Mas essa história não foi construída apenas por guitarras, riffs e baterias. Por trás de algumas das obras mais importantes do nosso metal estão vozes que se tornaram verdadeiras assinaturas sonoras.
Algumas carregavam a grandiosidade da música erudita. Outras traziam agressividade, dramaticidade e potência. Houve ainda aquelas capazes de transformar uma interpretação em personagem, narrativa e espetáculo. E, infelizmente, parte desses grandes nomes nos deixou cedo demais. Este artigo é uma lembrança — e também uma tentativa de dimensionar — o legado de três vocalistas que ajudaram a escrever capítulos importantes do heavy metal brasileiro: Mário Linhares, André Matos e Renato Tribuzy.
MÁRIO LINHARES
Mário Linhares foi uma das vozes mais marcantes do Dark Avenger, banda que ajudou a construir uma das vertentes mais épicas e conceituais do heavy metal brasileiro. Nascido em Fortaleza (CE), em 1º de junho de 1972, foi em Brasília que desenvolveu sua trajetória musical, iniciada nos anos 1990 e interrompida precocemente em 2017. Seu primeiro grande cartão de visitas foi o álbum Dark Avenger, lançado em 1995. Mas foi com Tales of Avalon: The Terror, de 2001, que a banda alcançou uma projeção ainda maior e Mário passou a ser reconhecido como uma das grandes vozes do metal nacional.
E havia algo muito particular em sua interpretação. Mário reunia agudos extremamente altos e cortantes, potência, ataque agressivo, vibrato característico e uma impressionante capacidade de alternar entre a dramaticidade épica e a fúria do heavy metal. Sua voz não servia apenas para acompanhar as músicas. Ela fazia parte da narrativa. O próprio Mário apontava entre suas influências nomes como Eric Adams, do Manowar, além de Helloween, Judas Priest, Iron Maiden e Metal Church. A partir dessas referências, procurava absorver diferentes técnicas e transformá-las em uma identidade própria.
O resultado era um vocalista que parecia ter nascido para o universo criado pelo Dark Avenger. A banda conseguiu construir um heavy metal épico e conceitual sem simplesmente reproduzir a fórmula do power metal europeu. Suas músicas mergulhavam em personagens, batalhas, reis, cavaleiros, mitologia, tragédia e heroísmo. Nesse cenário, Mário funcionava quase como o narrador de uma fantasia medieval sombria. Sua interpretação dava voz aos personagens e dimensão às histórias. Se o Dark Avenger construía o cenário, Mário era quem colocava os guerreiros dentro dele.
Além do Dark Avenger, participou de projetos como Harllequin, Heaven's Guardian, Khallice, Seventh Seal e Soulspell, ampliando ainda mais sua contribuição ao metal brasileiro. Em 2017, quando ainda atravessava uma fase produtiva da carreira, Mário morreu aos 45 anos, em Taguatinga (DF), vítima de um grave problema cardíaco. Naquele mesmo período, o Dark Avenger havia lançado The Beloved Bones: Hell, trabalho conceitual que recebeu atenção da imprensa especializada e apontava para novos capítulos da banda. A história, porém, foi interrompida. Ficou a voz. Ficou a obra. E ficou a sensação de que Mário Linhares ainda tinha muito a oferecer ao metal brasileiro.
ANDRÉ MATOS
Se Mário Linhares transformava o heavy metal em uma narrativa épica, André Matos levou o gênero para uma dimensão em que metal e música erudita podiam coexistir naturalmente. Mais do que vocalista do Viper, Angra e Shaman, André foi compositor, pianista, arranjador e regente. Sua formação musical foi fundamental para compreender a sofisticação de sua obra. Morreu em 8 de junho de 2019, aos 47 anos.
Sua história começou muito cedo. Em 1985, aos 13 anos, participou da fundação do Viper. A banda lançou Soldiers of Sunrise, em 1987, e Theatre of Fate, em 1989 — este último considerado um dos trabalhos fundamentais do heavy metal brasileiro. E existe uma ironia interessante em sua trajetória: André sequer pretendia ser vocalista. Seu instrumento principal era o piano/teclado. Acabou assumindo os vocais e, anos depois, se transformaria em uma das vozes mais reconhecidas do metal mundial.
Em 1991, participou da fundação do Angra. O resultado seria Angels Cry, lançado em 1993. Ali estava uma mudança importante. André não queria simplesmente reproduzir o heavy metal europeu. Sua formação em Regência Orquestral e Composição Musical, somada aos estudos de canto lírico e piano erudito, permitia incorporar harmonia clássica, coros, piano, arranjos orquestrais e estruturas sofisticadas ao metal.
Depois veio Holy Land, em 1996. Talvez seja nesse álbum que a identidade artística do primeiro Angra apareça de maneira mais completa: metal, música clássica e elementos brasileiros convivendo dentro de uma mesma obra. André entendia música para além do metal. E isso também se refletia em sua voz. Tecnicamente, era um vocalista impressionante. Sua assinatura estava nos agudos, mas sua capacidade vocal não se limitava a eles. Tinha grande extensão, emissão clara, facilidade nos registros altos, vibrato característico, excelente articulação e forte influência do canto lírico.
Mas havia uma característica ainda mais importante: André não precisava soar pesado para ser poderoso. Sua voz era mais lírica, elegante e melódica. Mesmo nos registros mais altos, havia uma sensação quase operística. E talvez seja aí que esteja uma das diferenças mais interessantes entre ele e Mário Linhares. Mário parecia um guerreiro cantando no meio da batalha. André parecia um personagem de uma ópera de heavy metal. Depois de deixar o Angra, em 2000, André formou o Shaman ao lado de Luis Mariutti e Ricardo Confessori. Em 2002, veio Ritual, um dos trabalhos fundamentais de sua carreira.
Ali estava um André mais maduro, com composições progressivas e uma voz menos presa às fórmulas tradicionais do power metal. "For Tomorrow", "Fairy Tale" e, principalmente, "Here I Am" são exemplos essenciais para compreender sua evolução. A partir de 2006, iniciou uma nova fase com sua banda solo, lançando Time to Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn of the Lights (2012). Também participou de projetos internacionais como Avantasia, Virgo e Symfonia.
Existe ainda um capítulo curioso de sua história: quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden, André afirmou posteriormente que chegou a ser considerado para o posto e teria ficado entre os finalistas. O cargo acabou ficando com Blaze Bayley. É uma daquelas hipóteses que alimentam a imaginação dos fãs: como teria sido o Iron Maiden com André Matos? Nunca saberemos.
André morreu em 2019, vítima de um infarto agudo do miocárdio. Estava ainda em atividade e havia voltado a se apresentar com a formação clássica do Shaman. Sua morte encerrou uma trajetória, mas não diminuiu seu tamanho. André Matos foi um músico completo que ajudou a provar que o heavy metal brasileiro poderia ser sofisticado sem perder peso, técnico sem perder emoção e erudito sem perder identidade.
RENATO TRIBUZY
Renato Tribuzy ocupa um espaço diferente nessa história. Sua importância não está apenas na quantidade de discos lançados, mas na dimensão do projeto que conseguiu construir e na capacidade de colocar um músico brasileiro lado a lado com alguns dos maiores nomes do heavy metal mundial. Renato começou como guitarrista. Sua transformação em vocalista aconteceu quase por acaso. Sua banda, Horizon, procurava um cantor e, durante um ensaio, Renato começou a cantar I Want Out, do Helloween, apenas para servir como referência aos músicos.
O resultado foi tão convincente que o baterista teria decretado: "achamos o vocalista". Depois veio o Thoten, banda que misturava o heavy metal dos anos 1980 com elementos progressivos. Com ela, Renato gravou Beyond Tomorrow e realizou turnês pela Europa e América do Sul. Mas foi em 2005 que seu nome ganhou projeção internacional. Naquele ano, Renato lançou Execution. E o elenco era impressionante. Bruce Dickinson, do Iron Maiden. Michael Kiske, do Helloween. Ralf Scheepers e Mat Sinner, do Primal Fear. Kiko Loureiro, do Angra. Roland Grapow, ex-Helloween e integrante do Masterplan. Roy Z, produtor, guitarrista e parceiro musical de Bruce Dickinson.
Seria fácil transformar Execution apenas em uma coleção de participações especiais. Mas esse não era o objetivo. Renato escreveu as músicas pensando na contribuição de cada convidado. Um dos exemplos mais claros é "Beast in the Light", composta especificamente para Bruce Dickinson. E o mais interessante é que Renato não desaparece diante de seus convidados. Ele mantém sua própria identidade. Sua voz é aberta, potente e teatral, trabalhando com médios fortes, graves encorpados, agudos agressivos, drives, voz limpa e diferentes níveis de intensidade.
E mais do que alcançar notas, Renato procurava interpretar. Ele próprio já explicou que queria colocar alma nas músicas de Execution, fazendo com que a voz transmitisse sofrimento, raiva ou diversão de acordo com cada composição. Isso aparece em faixas como "Execution", "Aggressive", "Lake of Sins" e "Web of Life". E talvez esteja justamente aí o maior mérito do álbum. Apesar da presença de alguns dos maiores nomes do metal mundial, Execution não depende exclusivamente deles para funcionar. As músicas permanecem. A voz de Renato permanece. E o projeto ganha identidade própria. Há ainda um aspecto particularmente importante: Renato conseguiu demonstrar que…








