segunda-feira, 31 de agosto de 2026

LEGADO DE AÇO

Os grandes vocalistas do metal brasileiro

Por Michel Sales


O heavy metal brasileiro construiu, ao longo das décadas, uma identidade própria e um legado que ultrapassou fronteiras. Bandas como Viper, Angra, Shaman, Soulspell, Dark Avenger, Thoten e tantas outras ajudaram a colocar o Brasil na rota internacional do gênero, rompendo barreiras geográficas, culturais e musicais. Mas essa história não foi construída apenas por guitarras, riffs e baterias. Por trás de algumas das obras mais importantes do nosso metal estão vozes que se tornaram verdadeiras assinaturas sonoras.

Algumas carregavam a grandiosidade da música erudita. Outras traziam agressividade, dramaticidade e potência. Houve ainda aquelas capazes de transformar uma interpretação em personagem, narrativa e espetáculo. E, infelizmente, parte desses grandes nomes nos deixou cedo demais. Este artigo é uma lembrança — e também uma tentativa de dimensionar — o legado de três vocalistas que ajudaram a escrever capítulos importantes do heavy metal brasileiro: Mário Linhares, André Matos e Renato Tribuzy.

MÁRIO LINHARES

Mário Linhares foi uma das vozes mais marcantes do Dark Avenger, banda que ajudou a construir uma das vertentes mais épicas e conceituais do heavy metal brasileiro. Nascido em Fortaleza (CE), em 1º de junho de 1972, foi em Brasília que desenvolveu sua trajetória musical, iniciada nos anos 1990 e interrompida precocemente em 2017. Seu primeiro grande cartão de visitas foi o álbum Dark Avenger, lançado em 1995. Mas foi com Tales of Avalon: The Terror, de 2001, que a banda alcançou uma projeção ainda maior e Mário passou a ser reconhecido como uma das grandes vozes do metal nacional.

E havia algo muito particular em sua interpretação. Mário reunia agudos extremamente altos e cortantes, potência, ataque agressivo, vibrato característico e uma impressionante capacidade de alternar entre a dramaticidade épica e a fúria do heavy metal. Sua voz não servia apenas para acompanhar as músicas. Ela fazia parte da narrativa. O próprio Mário apontava entre suas influências nomes como Eric Adams, do Manowar, além de Helloween, Judas Priest, Iron Maiden e Metal Church. A partir dessas referências, procurava absorver diferentes técnicas e transformá-las em uma identidade própria.

O resultado era um vocalista que parecia ter nascido para o universo criado pelo Dark Avenger. A banda conseguiu construir um heavy metal épico e conceitual sem simplesmente reproduzir a fórmula do power metal europeu. Suas músicas mergulhavam em personagens, batalhas, reis, cavaleiros, mitologia, tragédia e heroísmo. Nesse cenário, Mário funcionava quase como o narrador de uma fantasia medieval sombria. Sua interpretação dava voz aos personagens e dimensão às histórias. Se o Dark Avenger construía o cenário, Mário era quem colocava os guerreiros dentro dele.

Além do Dark Avenger, participou de projetos como Harllequin, Heaven's Guardian, Khallice, Seventh Seal e Soulspell, ampliando ainda mais sua contribuição ao metal brasileiro. Em 2017, quando ainda atravessava uma fase produtiva da carreira, Mário morreu aos 45 anos, em Taguatinga (DF), vítima de um grave problema cardíaco. Naquele mesmo período, o Dark Avenger havia lançado The Beloved Bones: Hell, trabalho conceitual que recebeu atenção da imprensa especializada e apontava para novos capítulos da banda. A história, porém, foi interrompida. Ficou a voz. Ficou a obra. E ficou a sensação de que Mário Linhares ainda tinha muito a oferecer ao metal brasileiro.

ANDRÉ MATOS

Se Mário Linhares transformava o heavy metal em uma narrativa épica, André Matos levou o gênero para uma dimensão em que metal e música erudita podiam coexistir naturalmente. Mais do que vocalista do Viper, Angra e Shaman, André foi compositor, pianista, arranjador e regente. Sua formação musical foi fundamental para compreender a sofisticação de sua obra. Morreu em 8 de junho de 2019, aos 47 anos. 

Sua história começou muito cedo. Em 1985, aos 13 anos, participou da fundação do Viper. A banda lançou Soldiers of Sunrise, em 1987, e Theatre of Fate, em 1989 — este último considerado um dos trabalhos fundamentais do heavy metal brasileiro. E existe uma ironia interessante em sua trajetória: André sequer pretendia ser vocalista. Seu instrumento principal era o piano/teclado. Acabou assumindo os vocais e, anos depois, se transformaria em uma das vozes mais reconhecidas do metal mundial.

Em 1991, participou da fundação do Angra. O resultado seria Angels Cry, lançado em 1993. Ali estava uma mudança importante. André não queria simplesmente reproduzir o heavy metal europeu. Sua formação em Regência Orquestral e Composição Musical, somada aos estudos de canto lírico e piano erudito, permitia incorporar harmonia clássica, coros, piano, arranjos orquestrais e estruturas sofisticadas ao metal.

Depois veio Holy Land, em 1996. Talvez seja nesse álbum que a identidade artística do primeiro Angra apareça de maneira mais completa: metal, música clássica e elementos brasileiros convivendo dentro de uma mesma obra. André entendia música para além do metal. E isso também se refletia em sua voz. Tecnicamente, era um vocalista impressionante. Sua assinatura estava nos agudos, mas sua capacidade vocal não se limitava a eles. Tinha grande extensão, emissão clara, facilidade nos registros altos, vibrato característico, excelente articulação e forte influência do canto lírico.

Mas havia uma característica ainda mais importante: André não precisava soar pesado para ser poderoso. Sua voz era mais lírica, elegante e melódica. Mesmo nos registros mais altos, havia uma sensação quase operística. E talvez seja aí que esteja uma das diferenças mais interessantes entre ele e Mário Linhares. Mário parecia um guerreiro cantando no meio da batalha. André parecia um personagem de uma ópera de heavy metal. Depois de deixar o Angra, em 2000, André formou o Shaman ao lado de Luis Mariutti e Ricardo Confessori. Em 2002, veio Ritual, um dos trabalhos fundamentais de sua carreira.

Ali estava um André mais maduro, com composições progressivas e uma voz menos presa às fórmulas tradicionais do power metal. "For Tomorrow", "Fairy Tale" e, principalmente, "Here I Am" são exemplos essenciais para compreender sua evolução. A partir de 2006, iniciou uma nova fase com sua banda solo, lançando Time to Be Free (2007), Mentalize (2009) e The Turn of the Lights (2012). Também participou de projetos internacionais como Avantasia, Virgo e Symfonia.

Existe ainda um capítulo curioso de sua história: quando Bruce Dickinson deixou o Iron Maiden, André afirmou posteriormente que chegou a ser considerado para o posto e teria ficado entre os finalistas. O cargo acabou ficando com Blaze Bayley. É uma daquelas hipóteses que alimentam a imaginação dos fãs: como teria sido o Iron Maiden com André Matos? Nunca saberemos.

André morreu em 2019, vítima de um infarto agudo do miocárdio. Estava ainda em atividade e havia voltado a se apresentar com a formação clássica do Shaman. Sua morte encerrou uma trajetória, mas não diminuiu seu tamanho. André Matos foi um músico completo que ajudou a provar que o heavy metal brasileiro poderia ser sofisticado sem perder peso, técnico sem perder emoção e erudito sem perder identidade.

RENATO TRIBUZY

Renato Tribuzy ocupa um espaço diferente nessa história. Sua importância não está apenas na quantidade de discos lançados, mas na dimensão do projeto que conseguiu construir e na capacidade de colocar um músico brasileiro lado a lado com alguns dos maiores nomes do heavy metal mundial. Renato começou como guitarrista. Sua transformação em vocalista aconteceu quase por acaso. Sua banda, Horizon, procurava um cantor e, durante um ensaio, Renato começou a cantar I Want Out, do Helloween, apenas para servir como referência aos músicos.

O resultado foi tão convincente que o baterista teria decretado: "achamos o vocalista". Depois veio o Thoten, banda que misturava o heavy metal dos anos 1980 com elementos progressivos. Com ela, Renato gravou Beyond Tomorrow e realizou turnês pela Europa e América do Sul. Mas foi em 2005 que seu nome ganhou projeção internacional. Naquele ano, Renato lançou Execution. E o elenco era impressionante. Bruce Dickinson, do Iron Maiden. Michael Kiske, do Helloween. Ralf Scheepers e Mat Sinner, do Primal Fear. Kiko Loureiro, do Angra. Roland Grapow, ex-Helloween e integrante do Masterplan. Roy Z, produtor, guitarrista e parceiro musical de Bruce Dickinson.

Seria fácil transformar Execution apenas em uma coleção de participações especiais. Mas esse não era o objetivo. Renato escreveu as músicas pensando na contribuição de cada convidado. Um dos exemplos mais claros é "Beast in the Light", composta especificamente para Bruce Dickinson. E o mais interessante é que Renato não desaparece diante de seus convidados. Ele mantém sua própria identidade. Sua voz é aberta, potente e teatral, trabalhando com médios fortes, graves encorpados, agudos agressivos, drives, voz limpa e diferentes níveis de intensidade.

E mais do que alcançar notas, Renato procurava interpretar. Ele próprio já explicou que queria colocar alma nas músicas de Execution, fazendo com que a voz transmitisse sofrimento, raiva ou diversão de acordo com cada composição. Isso aparece em faixas como "Execution", "Aggressive", "Lake of Sins" e "Web of Life". E talvez esteja justamente aí o maior mérito do álbum. Apesar da presença de alguns dos maiores nomes do metal mundial, Execution não depende exclusivamente deles para funcionar. As músicas permanecem. A voz de Renato permanece. E o projeto ganha identidade própria. Há ainda um aspecto particularmente importante: Renato conseguiu demonstrar que…

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

HERMAN FRANK

O motor barulhento, rápido e construído para rodar

Por Michel Sales

 

Fight the Fear, o quarto trabalho solo do guitarrista alemão Herman Frank (Accept, Victory), chegou em 2019 como um verdadeiro petardo de Heavy Metal. Riffs pesados, refrões grudentos e uma atmosfera agressiva se encontram em uma sonoridade que equilibra a tradição do metal clássico com uma produção contemporânea, transitando pela mesma estrada de nomes como Judas Priest, Dio e Motörhead.

Neste disco, os riffs afiados de Frank encontram as vocalizações poderosas de Rick Altzi (Masterplan, At Vance), formando uma combinação que funciona muito bem. A voz de Altzi acrescenta peso, personalidade e dramaticidade às composições, estabelecendo uma conexão particularmente eficiente com as guitarras de Frank. O resultado é um álbum vigoroso e, em vários momentos, ainda mais impactante que seus trabalhos anteriores.

A própria estética de Fight the Fear parece ter saído de uma garagem tomada por óleo, gasolina e amplificadores no talo. A capa, com sua motocicleta customizada, traduz perfeitamente o espírito do disco: estrada, velocidade, couro, gasolina, liberdade e atitude. É Heavy Metal com cheiro de asfalto quente e motor acelerado.

Entre os destaques, “Until the End” abre o álbum de maneira certeira, com um riff imediatamente marcante, bateria pesada e os vocais entrando com força. “Fear” acelera ainda mais o motor e entrega uma das faixas mais agressivas do disco, funcionando como uma excelente porta de entrada para a sonoridade de Frank.

Em “Terror”, o clima ganha contornos quase mecânicos, como uma máquina de guerra avançando sem freios. Já “Hatred” reduz um pouco a velocidade, mas compensa com peso e um refrão que carrega aquela atmosfera clássica do Heavy Metal alemão.

“Hitman” pisa no acelerador com uma pegada mais rock'n'roll e um balanço tipicamente oitentista. “Don't Cross the Line”, por sua vez, aposta em uma atmosfera mais ameaçadora, sustentada por um riff poderoso e direto.

E então chega “Wings of Destiny”, uma das grandes peças do álbum. A faixa consegue equilibrar agressividade, melodia e uma dimensão mais épica, sem perder a identidade pesada que percorre todo o disco. É provavelmente um dos momentos em que Frank melhor demonstra sua capacidade de transformar riffs tradicionais em algo grandioso.

No encerramento, “Lost in Heaven” funciona como um respiro depois de toda a aceleração. A faixa desacelera o ritmo e encerra o álbum de maneira mais contida, criando um contraste interessante com a pancadaria que veio antes.

No fim das contas, Fight the Fear não pretende reinventar o Heavy Metal — e talvez esteja justamente aí sua maior virtude. Herman Frank conhece profundamente a fórmula e sabe exatamente como fazê-la funcionar: guitarras pesadas, riffs cortantes, solos, refrões e muita atitude.

No mais, Fight the Fear é um disco para ouvir alto, acelerar a máquina e deixar o som tomar conta, pois ele é realmente um discaralhooooo! - o melhor trabalho solo de Herman Frank – na minha opinião. Portanto, aperte o play, aumente o volume e aprecie sem moderação.

Nota: 10

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POLÍTICA

 CORAGEM PARA SER MELHOR


Os debates na TV aberta são importantes para trazer mais lucidez ao eleitor, permitindo que propostas sejam confrontadas, trajetórias administrativas sejam avaliadas e posicionamentos sejam colocados à prova. É nesse espaço que também precisam ser discutidos, com responsabilidade, casos de corrupção, abusos de poder político e econômico e os impactos dessas práticas na vida da população.

No caso de Lula, impressiona perceber como parte do eleitorado ainda deposita esperança em um projeto político marcado por controvérsias, denúncias e episódios de corrupção que atravessaram seus governos e o cenário político ao seu redor.

Mais preocupante ainda é perceber como problemas como impunidade, violência, precariedade educacional, falta de oportunidades profissionais e ausência de desenvolvimento acabam sendo naturalizados por uma parcela da sociedade.

Talvez o verdadeiro desafio seja justamente ter coragem para enxergar além da propaganda, questionar velhas narrativas e escolher aquilo que pode, de fato, nos tornar melhores.

Coragem para ser melhor. Coragem para questionar. Coragem para mudar.

domingo, 23 de agosto de 2026

LEGADO ESTRIDENTE

A brutalidade do Grave Digger em Return of the Reaper

Por Michel Sales

 

Já escrevi diversas resenhas sobre discos do Grave Digger, principalmente de álbuns que deixaram marcas profundas na vasta discografia dessa lendária banda alemã. E digo — e repito: quando esses caras acertam a mão, é melhor sair da frente, porque a pancadaria é de proporções descomunais.

É exatamente o caso de Return of the Reaper (2014), um daqueles trabalhos em que o Grave Digger decidiu deixar os grandes conceitos épicos um pouco de lado e voltar a fazer aquilo que sabe como poucos: Heavy Metal na veia, pesado, direto e sem frescura.

Com 12 faixas insanas, o 17º álbum de estúdio da banda representa um verdadeiro retorno às raízes. Chris Boltendahl e sua tropa de ceifadores simplificaram a fórmula sem, contudo, diminuir a intensidade: riffs rápidos e secos, doses generosas de Heavy/Speed/Power Metal, menos teclados, refrãos simples e pegajosos, guitarras agressivas e uma temática que passeia tranquilamente por morte, túmulos, inferno, guerra e destruição. Tudo isso resulta em um disco tradicional, visceral e extremamente objetivo.

A faixa-título, “Return of the Reaper”, abre os trabalhos em clima fúnebre, com vento, trovões, marcha, cavalos e uma ambientação praticamente cinematográfica, como se o próprio Ceifador estivesse retornando do além para cobrar algumas almas. E, na sequência, “Hell Funeral” surge como uma verdadeira declaração de guerra. Boltendahl vocifera como se estivesse convocando um exército de mortos para marchar sobre os vivos.

“War God” mantém a marcha pesada, com riffs marcantes e excelente trabalho de guitarra. Já “Tattooed Rider” traz aquele Grave Digger mais tradicional, com uma pegada que inevitavelmente remete ao universo do Judas Priest.

Em “Resurrection Day”, a velocidade aumenta e alguns momentos carregam aquela sujeira típica do Motörhead. “Road Rage Killer” é provavelmente uma das faixas mais divertidas do álbum: Heavy Metal sobre rodas, acelerado, simples e explosivo.

E então vem “Grave Desecrator”, outro grande momento do disco. O refrão é daqueles que grudam imediatamente e a atmosfera remete diretamente ao Grave Digger clássico. É uma faixa que resume muito bem a proposta do álbum: peso, velocidade e aquele espírito old school que acompanha a banda desde seus primeiros anos.

“Season of the Witch” mergulha em uma atmosfera mais sombria e pesada, enquanto “Death Smiles at Us” aposta em um clima mais dramático, mostrando que a banda ainda sabe trabalhar diferentes nuances sem abandonar sua identidade.

Para fechar, “Nothing to Believe” quebra um pouco a brutalidade do restante do álbum. É uma espécie de balada Heavy Metal mais melódica, permitindo que Chris Boltendahl mostre um lado menos agressivo e mais contido.

Return of the Reaper não pretende reinventar o Grave Digger — e talvez esteja justamente aí uma de suas maiores virtudes. O disco não precisa inventar moda para funcionar. Ele simplesmente resgata a essência da banda, coloca algumas toneladas de peso sobre ela e entrega tudo com uma produção moderna. É uma verdadeira visita ao passado sem abrir mão do presente.

No mais, o Ceifador voltou, abriu a cova, afiou a foice e trouxe consigo uma coleção de riffs capazes de ressuscitar até os mortos.

Nota: 10

sexta-feira, 21 de agosto de 2026

LEGADO ESTRIDENTE

A saga de Christopher Lee no Heavy Metal

Por Michel Sales

 

Poucos atores conseguiram construir uma presença tão monumental na cultura pop quanto Sir Christopher Lee (1922–2015). Com quase dois metros de altura, uma voz grave e inconfundível e uma carreira cinematográfica de mais de seis décadas, Lee tornou-se sinônimo de personagens sombrios, aristocráticos e ameaçadores. Drácula, Saruman e Conde Dooku estão entre os papéis que ajudaram a transformar sua figura em um dos grandes ícones do cinema fantástico.

Mas existe uma fase de sua trajetória que parece saída de uma história de Heavy Metal: já octogenário, Christopher Lee decidiu mergulhar de cabeça no gênero. E não como uma simples participação especial. Ele gravou discos, cantou, narrou sagas de fantasia, interpretou personagens históricos e chegou a figurar na parada da Billboard aos 91 anos.

Sua relação mais marcante com o Metal aconteceu ao lado do Rhapsody, banda italiana que posteriormente adotaria o nome Rhapsody of Fire. A parceria começou em 2004, com Symphony of Enchanted Lands II – The Dark Secret, e encontrou no timbre grave do ator a voz perfeita para narrar um universo de espadas, magia, demônios, profecias e batalhas épicas.

Lee assumiu o papel do Wizard King, o Rei Mago, funcionando praticamente como o narrador de uma grande fantasia medieval. Sua voz não aparece apenas como um adorno: ela ajuda a construir a atmosfera cinematográfica da banda, transformando as introduções e narrações em verdadeiros prólogos de uma epopeia.

O primeiro grande momento dessa parceria, porém, foi além da narração. Em The Magic of the Wizard's Dream, Christopher Lee divide os vocais com Fabio Lione e demonstra que sua voz operística poderia conviver perfeitamente com o universo sinfônico do Rhapsody. A música tornou-se uma das colaborações mais emblemáticas entre o cinema fantástico e o Metal.

A parceria continuaria em Triumph or Agony (2006), primeiro álbum lançado sob o nome Rhapsody of Fire, e posteriormente em The Frozen Tears of Angels (2010) e From Chaos to Eternity (2011), encerrando sua participação em vida na chamada The Dark Secret Saga.

A saga é uma continuação conceitual do universo criado anteriormente pela banda em The Emerald Sword Saga. No centro da narrativa estão os misteriosos Sete Livros Negros, especialmente o perigoso Book of Shadows, capaz de abrir portais e libertar forças demoníacas sobre o mundo de Algalord.

É exatamente nesse território que Christopher Lee se encaixa com perfeição. Sua voz funciona como uma espécie de portal entre a música e a literatura fantástica. Ele apresenta profecias, acontecimentos e personagens como se estivesse narrando uma antiga crônica medieval encontrada em algum tomo proibido.

A história acompanha personagens como Dargor e Tarish em uma jornada envolvendo o Livro das Sombras, forças demoníacas, terras congeladas e confrontos de proporções apocalípticas. Em From Chaos to Eternity, a narrativa chega ao seu clímax com o confronto entre Dargor e o Deus Demônio Nekron.

Mas a relação de Lee com o universo do Rhapsody não terminaria completamente em 2011. Em The Eighth Mountain (2019), lançado quatro anos após sua morte, a banda utilizou material narrado pelo ator que havia sido gravado anteriormente. Na faixa final, Tales of a Hero's Fate, sua voz reaparece como uma espécie de elo entre o passado e uma nova fase da mitologia do grupo.

E então chegamos à outra faceta dessa história: Christopher Lee não foi apenas narrador de Heavy Metal. Ele também se tornou um artista de Metal. Em 2010, aos 87 anos, lançou Charlemagne: By the Sword and the Cross, álbum dedicado à figura histórica de Carlos Magno, personagem que Lee dizia integrar sua própria ancestralidade familiar. O trabalho mistura Metal sinfônico, música clássica, coral e elementos operísticos, funcionando como uma verdadeira ópera metálica.

Três anos depois, aos 91, veio Charlemagne: The Omens of Death. Se o primeiro álbum transitava fortemente pelo universo sinfônico, o segundo mergulhou de maneira muito mais direta no Heavy Metal tradicional. Guitarras pesadas, bateria poderosa e arranjos mais agressivos criaram um contraste fascinante com a voz grave e teatral do ator.

A produção contou ainda com músicos ligados ao universo do Metal, incluindo Richie Faulkner, guitarrista do Judas Priest. O resultado é, no mínimo, inusitado: um dos maiores intérpretes do cinema fantástico cantando sobre Carlos Magno enquanto guitarras distorcidas rasgam o fundo musical.

Aos 92 anos, Lee ainda teria fôlego para lançar Metal Knight (2014), EP que transformou clássicos da música e do teatro em versões metálicas. Entre as escolhas estavam I, Don Quixote, The Impossible Dream, The Toreador March e My Way.

E como se tudo isso já não fosse suficientemente extraordinário, Christopher Lee ainda transformou o Natal em Heavy Metal. Em A Heavy Metal Christmas (2012), apresentou versões de clássicos natalinos como Little Drummer Boy e Silent Night. No ano seguinte, A Heavy Metal Christmas Too trouxe Jingle Hell, uma releitura metaleira de Jingle Bells. Aos 91 anos, Lee entrou para a história ao alcançar a Billboard com a música.

Existe algo de profundamente simbólico nessa trajetória. Christopher Lee começou sua carreira cinematográfica décadas antes de muitos dos músicos que posteriormente o acompanhariam. Quando o Heavy Metal surgiu, ele já era um ator consagrado. Quando gravou seus primeiros trabalhos no gênero, já tinha idade suficiente para ser avô de muitos de seus fãs.

Ainda assim, recusou-se a transformar a idade em limite. Sua passagem pelo Metal também revela algo que talvez explique a afinidade entre ele e o gênero. O Heavy Metal sempre cultivou uma relação intensa com mitologia, literatura, história, fantasia, guerra, heroísmo, tragédia e morte. Lee, por sua vez, passou décadas interpretando justamente esse universo. Sua voz parecia ter sido criada para narrar batalhas antigas, reis esquecidos, feiticeiros, dragões e mundos ameaçados pelo caos.

Por isso, quando sua voz surge em um álbum do Rhapsody of Fire, não parece uma participação aleatória de uma celebridade. Parece uma peça que finalmente encontrou o lugar onde deveria estar. Christopher Lee foi Drácula, Saruman e Conde Dooku. Foi também Carlos Magno. Foi o Wizard King. Foi narrador de profecias e cantor de Heavy Metal.

E talvez essa seja a parte mais fascinante de sua história: quando a maioria das pessoas pensam que já viveu tudo o que poderia viver, Christopher Lee resolveu empunhar outra espada — desta vez, uma guitarra distorcida como trilha sonora. Morreu em 2015, aos 93 anos, mas deixou uma obra que parece contrariar a própria lógica do tempo.

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

ACORDO COM A NATUREZA


Por Michel Sales 

A natureza é viva. Ela se move pela força do vento, pela energia do solo, pelo movimento das águas e pelo giro gravitacional da Terra.

É fluida na chuva, inquieta nos mares, misteriosa nos uivos das cavernas e silenciosa nos sussurros das florestas.

Transborda vida nos vulcões, no voo dos pássaros, nos passos das pessoas e no movimento dos animais sobre a Terra.

A natureza pode ser tocada, transformada e habitada, mas também precisa de espaços intocados — preservados e protegidos para que a vida siga seu curso sem danos.

Porque a natureza, assim como a própria vida humana, se transforma, se adapta, se refaz e se sedimenta no tempo.

Mas também pode despertar sua fúria.

Quando o equilíbrio é rompido, ela responde. E sua força não escolhe lados: espalha-se sobre todos como um efeito que devolve ao mundo aquilo que nele foi acumulado.

terça-feira, 18 de agosto de 2026

POLÍTICA

A REALIDADE INVERTIDA

Por Michel Sales


O que é o vazio senão aquilo que não tem nada dentro? Um espaço sem ocupantes, um lugar oco, uma ausência de sentido em uma realidade onde o valor parece ter sido substituído pela conveniência. E o que é o nada? A ausência total de qualquer coisa: de matéria, de existência, de propósito.

Mas talvez exista algo ainda mais perverso: a realidade em que o nada é apresentado como se fosse tudo. É nessa inversão que o poder politiqueiro prospera. Promessas ocupam o lugar de projetos; interesses particulares são vendidos como interesse público; discursos substituem resultados. Enquanto o cidadão luta para sobreviver, a máquina do poder continua girando em torno de cargos, privilégios e conveniências.

E quando a Justiça, que deveria funcionar como último instrumento de equilíbrio, é percebida como submetida a interesses, seletividades ou conveniências políticas, o vazio deixa de ser apenas ausência: torna-se método.

O brasileiro é mantido dentro de uma realidade invertida, na qual questionar é tratado como ameaça, denunciar pode ser mais perigoso do que errar e o poder consegue transformar seus próprios interesses em verdade oficial.

No fim, não é apenas o povo que perde. Perde a democracia, perde a Justiça e perde o sentido de viver em uma sociedade onde as instituições deveriam existir para servir ao cidadão — e não para mantê-lo como espectador da própria impotência.

LEGADO DE AÇO

Os grandes vocalistas do metal brasileiro Por Michel Sales O heavy metal brasileiro construiu, ao longo das décadas, uma identidade própria ...