domingo, 26 de abril de 2026

CAPÍTULO FINAL

Sepultura se despede entre nuvens e ruínas

Por Michel Sales

 

Formado em 1984, em Belo Horizonte, o Sepultura se despede deixando um legado incontornável na música extrema. Reconhecida como a maior banda de Heavy Metal do Brasil e uma das mais relevantes do mundo, a trajetória do grupo atravessa mais de quatro décadas de reinvenção, peso e impacto global.

São cerca de 42 anos de história, marcados por diferentes fases — do death/thrash metal visceral dos anos 80 às experimentações mais modernas conduzidas por Derrick Green. Poucas bandas brasileiras alcançaram tamanha longevidade mantendo relevância artística e presença internacional.

Neste mês de abril, já em clima de despedida, o Sepultura lançou The Cloud of Unknowing, EP com quatro faixas inéditas que simboliza o último registro de estúdio da carreira. O trabalho surge durante a turnê final Celebrating Life Through Death, funcionando como um encerramento simbólico e artístico.

O EP reúne as faixas “All Souls Rising”, “Beyond the Dream”, “Sacred Books” e “The Place”, combinando o peso característico da banda com atmosferas mais densas e melancólicas. Há também espaço para vocais limpos de Derrick Green — um elemento pouco explorado na discografia do grupo — que amplia ainda mais a paleta sonora deste capítulo final.

Segundo o guitarrista Andreas Kisser, o título The Cloud of Unknowing parte de um conceito espiritual antigo reinterpretado sob uma ótica contemporânea. A proposta aborda temas como alienação, tecnologia e distanciamento humano, questionando a chamada “realidade artificial” da vida moderna. O resultado é um trabalho mais introspectivo e reflexivo do que diretamente político, evidenciando a maturidade artística da banda.

O EP também marca a estreia — e despedida — do baterista Greyson Nekrutman em estúdio com o grupo. Gravado em Miami de forma rápida e orgânica, o material carrega uma sonoridade crua e espontânea. Mesmo com curta duração, o lançamento não soa como um apanhado de sobras, mas como um último e consistente statement criativo.

O LEGADO DO HOMEM VERDE

O fim do Sepultura também consolida o legado de Derrick Green, figura essencial na fase mais recente da banda. Sua entrada, em 1997, ocorreu em um momento delicado, logo após a saída de Max Cavalera, até então peça central do grupo. Em vez de tentar ocupar esse espaço de forma mimética, Derrick construiu uma identidade própria, tanto vocal quanto de presença de palco.

Álbuns como Roorback (2003), Kairos (2011), The Mediator Between Head and Hands Must Be the Heart (2013) e Quadra (2020), além do EP Revolusongs (2002), demonstram uma fase ousada, conceitual e aberta a novas influências. Elementos de hardcore, industrial, groove e até referências à música brasileira continuaram presentes, mas sob uma nova abordagem.

Mais do que manter a banda ativa no cenário global, Derrick Green ajudou a consolidar uma nova identidade para o Sepultura, sustentada por turnês constantes e uma base fiel de fãs ao redor do mundo. Sua parceria com Andreas Kisser foi fundamental para a estabilidade interna e para a continuidade criativa do grupo.

Assim, Derrick não substituiu Max Cavalera — ele foi peça-chave na transformação do Sepultura. Seu legado é o da evolução: garantir que a banda não se tornasse apenas uma lembrança dos anos 90, mas permanecesse viva, relevante e em constante movimento até seu último acorde.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

LEGADO ESTRIDENTE

Sakis Tolis evoca o tribal em novo projeto com singles e inéditas

Por Michel Sales

 

O guitarrista Sakis Tolis (Rotting Christ) disponibilizou Echoes From The Void (2026), um novo projeto nas plataformas digitais, reunindo sete faixas, sendo elas: The Fall of the Tyrants, 2.Bound by Fire, 3. The Origin, 4. Sera, 5. Ancestral Whispers, 6. Hail Caesar, 7. Here Comes the Sun.

De acordo com o músico, a proposta sonora traz uma abordagem de caráter mais tribal, compilando singles lançados ao longo dos anos, além de incluir duas composições inéditas. O material já pode ser ouvido no Spotify e no YouTube.

Nos últimos anos, especialmente desde o período da pandemia de Covid-19, Sakis tem expandido sua carreira solo com propostas mais experimentais e ainda mais voltadas ao universo pagão, explorando conceitos místicos profundamente enraizados, sobretudo, na cultura grega.

E para quem acompanha a intensidade criativa desse ícone do Black Metal mundial, vale ficar de olho nas constantes novidades de Sakis Tolis. O músico vive uma fase extremamente produtiva, lançando material com frequência e, possivelmente, já trabalhando nas próximas ideias do Rotting Christ para alimentar a expectativa dos fãs.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

SAKIS TOLIS

Espiritualidade e ocultismo na carreira solo

Por Michel Sales

 

A carreira solo de Sakis Tolis é relativamente recente, mas já demonstra uma identidade sólida e bem definida — distinta e, ao mesmo tempo, complementar ao trabalho desenvolvido com o Rotting Christ.

Iniciada em 2021, essa fase ganhou força com Among the Fires of Hell (2022), um álbum concebido durante o período de isolamento da pandemia de Covid-19. O disco revela uma abordagem mais introspectiva, combinando black metal melódico, elementos góticos e passagens atmosféricas. Faixas como “My Salvation”, “The Dawn of a New Age” e “The Silence” evidenciam uma proposta mais pessoal e quase espiritual, estabelecendo o tom do projeto solo.

Mantendo essa carga mística e ritualística, Tolis lançou em 2023 o EP Orkizome, que funciona como uma ponte criativa para trabalhos posteriores. Aqui, o músico explora com mais liberdade os vocais limpos, sem abrir mão da atmosfera sombria que marca sua assinatura artística.

Ainda em 2023, surge The Seven Seals of the Apocalypse, um projeto especial que foge ao formato tradicional de álbum. Trata-se de uma obra conceitual baseada no Livro do Apocalipse, estruturada a partir da simbologia dos sete selos e seus desdobramentos. A narrativa percorre temas como os cavaleiros do Apocalipse, o juízo final, o caos e a transformação espiritual.

Musicalmente, o trabalho aposta em uma sonoridade atmosférica, quase cinematográfica, com forte caráter ritualístico e litúrgico. Teclados e ambiências ganham protagonismo, enquanto os vocais surgem mais limpos e declamatórios. Em diversos momentos, a obra se aproxima mais de uma trilha sonora ou de uma liturgia sombria do que propriamente de um álbum de metal convencional.

Em comparação com Among the Fires of Hell — mais estruturado no formato de canções — e com Everything Comes to an End, mais direto e variado, The Seven Seals of the Apocalypse se destaca como o trabalho mais experimental e conceitual da fase solo. É uma peça artística que evidencia o interesse de Tolis por mitologia e religião como linguagem narrativa, priorizando atmosfera e significado em detrimento de riffs tradicionais.

Para os fãs da fase mais épica do Rotting Christ, especialmente álbuns como Kata Ton Daimona Eaytoy, este projeto soa como uma extensão ainda mais profunda e contemplativa dessa estética.

Em 2025, Tolis retorna com Everything Comes to an End, seu terceiro álbum solo, novamente produzido de forma independente em Atenas. O disco apresenta momentos mais acessíveis, com estruturas diretas e elementos que flertam com o rock e o metal mais tradicionais. Destaques como “One Voice, One Flame” e “Hail Thy Mighty Rock n’ Roll” mostram essa abertura sonora, e ajudam a compreender a evolução do projeto solo, revelando ideias que muitas vezes não encontrariam espaço dentro do universo do Rotting Christ.

No geral, a carreira solo de Sakis Tolis se caracteriza por uma abordagem mais introspectiva da espiritualidade e do ocultismo, com forte presença de melodias limpas, atmosferas densas e estruturas mais diretas. Trata-se de um projeto essencialmente autoral, no qual o músico assume praticamente todas as funções, criando um ambiente íntimo — quase como um diário musical.

Para quem acompanha sua trajetória, essa fase paralela não apenas complementa sua obra principal, mas revela novas camadas de um artista que continua expandindo seus próprios limites criativos.

sexta-feira, 17 de abril de 2026

LEGADO ESTRIDENTE

Lepthospirose volta à cena com nova formação e promessa de grande espetáculo

Por Michel Sales


Após um longo período de hiato, a lendária banda roraimense Lepthospirose anuncia seu aguardado retorno aos palcos em 2026, reacendendo a chama do metal produzido no extremo norte do país. A nova formação conta com João Batista (vocal), Frankson Rodrigues (baixo), Rodrigo Baraúna (guitarra), Thiago Moreira (guitarra) e Jon Nelson (bateria).

Como parte desse comeback, o grupo também apresenta um material especial em formato de quadrinho, que revisita sua trajetória e legado dentro da cena underground. O conteúdo já está disponível ao público por meio do link.

A história da Lepthospirose remonta a 2001, em um momento simbólico para o rock nacional, impulsionado pelo impacto do Rock in Rio na cultura jovem brasileira. Em Boa Vista, no bairro Pricumã, um grupo de amigos se reunia para assistir aos shows e alimentar o desejo de criar algo próprio. Foi desse ambiente que nasceu a banda, inicialmente sem nome, mas já carregando atitude e identidade.

O ponto de consolidação veio na casa de Frankson Rodrigues, espaço que se tornou referência para encontros da cena rock local. Ali, entre influências que transitavam do punk ao heavy metal, surgiu o nome Lepthos — inspirado em “leptospirose” — refletindo uma estética agressiva, crua e provocadora.

Ao longo de sua trajetória, a banda enfrentou conflitos internos, mudanças de formação e desafios típicos de grupos independentes. Ainda assim, resistiu. Seu primeiro show, marcado por problemas técnicos e tensão entre os integrantes, quase foi também o último. Mas a persistência falou mais alto, e a Lepthospirose seguiu construindo sua identidade nos palcos de Boa Vista, atravessando gerações com sua sonoridade intensa e autêntica.

Agora, mais de duas décadas depois, o retorno chega com uma nova perspectiva. Segundo o vocalista João Batista, o tempo trouxe maturidade e uma visão mais clara sobre os caminhos da banda. “Estamos muito mais maduros e coesos. Sabemos o que queremos e em breve vamos mostrar isso”, afirma.

O afastamento também impactou a forma como o grupo enxerga sua própria trajetória. “Mudou sim. Temos uma outra abordagem pra esse novo momento, mas sem perder a essência”, destaca João.

A data e o local do show de reestreia já estão definidos, mas serão revelados oficialmente em um evento especial no Porão do Alemão, mantendo o clima de expectativa entre os fãs. Sobre o retorno aos palcos, a promessa é de uma apresentação marcante: “O público pode esperar um super show, nos moldes dos especiais antigos do Iron Maiden”, antecipa o vocalista, indicando uma experiência intensa e nostálgica.

Neste primeiro momento, o foco será revisitar os tempos áureos da banda, resgatando clássicos que marcaram sua trajetória. No entanto, a nova fase também abre espaço para futuras novidades.

O anúncio do retorno foi recebido com entusiasmo pelo público. “A reação foi a melhor possível: muito incentivo, torcida pra que dê certo e muita euforia, principalmente dos fãs mais saudosos”, relata João. Sobre a possibilidade de conquistar uma nova geração, ele acredita que o movimento será natural: “Acho que assim que começar, muitos vão descobrir a banda”.

Com mais experiência, alinhamento e energia renovada, a Lepthospirose se prepara para reafirmar seu espaço na cena metal, carregando consigo a essência que sempre definiu sua identidade: atitude, peso e paixão pelo rock.

sábado, 11 de abril de 2026

STAR ONE

Riffs pesados e refrões chicletes em Revel In Time

Por Michel Sales

 

No fim do período mais crítico da pandemia de Covid-19, o multi-instrumentista Arjen Anthony Lucassen lançou Revel in Time (2022), terceiro trabalho do projeto Star One. Diferente do Ayreon, aqui Lucassen abandona quase completamente os elementos folk e mergulha em uma abordagem mais direta, pesada e orientada ao metal.

Desde Victims of the Modern Age (2010), Revel in Time chega com vontade de expandir a identidade do Star One, mas também sem repetir a fórmula de Space Metal (2002). O resultado é um disco que mantém a base do metal progressivo, mas incorpora com mais evidência elementos de hard rock, power metal e música eletrônica, criando uma sonoridade densa, moderna e, evidentemente, cinematográfica.

O conceito gira em torno da viagem no tempo, explorada como um mosaico de possibilidades: paradoxos, futuros distópicos, revisões históricas e dilemas existenciais. Cada faixa funciona como uma variação desse tema, reforçando a ideia de que o tempo, aqui, é tanto ferramenta quanto ameaça. A construção musical acompanha esse conceito, alternando momentos de tensão, expansão e ruptura.

As referências de ficção científica aparecem dialogando com obras como Interstellar, Back to the Future, Doctor Who, The Terminator e Bill & Ted's Excellent Adventure. Essas influências ajudam a sustentar a atmosfera sci-fi que atravessa todo o álbum.

Lançado como disco duplo, Revel in Time apresenta duas versões das mesmas faixas, cada uma interpretada por vocalistas diferentes — uma escolha que reforça a proposta conceitual ao oferecer múltiplas leituras para o mesmo material. Entre os nomes convidados estão Russell Allen, Jeff Scott Soto, Joe Lynn Turner, Damian Wilson, Dan Swanö, Floor Jansen e Tony Martin, entre outros.

No mais, Revel in Time é um trabalho sólido, bem produzido e conceitualmente coerente, que reforça a capacidade de Lucassen de criar universos musicais complexos sem perder acessibilidade.

Nota: 7

LEGADO ESTRIDENTE

Evergrey e a estética da melancolia no metal progressivo

Por Michel Sales

 

Falar de Evergrey é entrar num dos territórios mais densos e emocionalmente carregados do metal progressivo moderno. Formada em Gotemburgo, na Suécia, em 1996, a banda já mostrou a que veio no debut The Dark Discovery (1998), um álbum que foge da empolgação juvenil típica de estreia e aposta direto em uma identidade sombria, introspectiva e extremamente coesa.

Ao longo dos anos, o Evergrey não apenas evoluiu — refinou sua própria assinatura. Com uma discografia que hoje soma 15 álbuns, o grupo construiu uma trajetória consistente, sem rupturas oportunistas. Trabalhos como The Storm Within (2016), The Atlantic (2019), Escape of the Phoenix (2021) e A Heartless Portrait (The Orphean Testament) (2022) mostram uma banda madura, confortável em explorar atmosferas melancólicas com peso e técnica.

Mas é em Recreation Day (2003) que essa proposta atinge um dos seus pontos mais altos. O disco mergulha em temas como morte, dor e reconstrução emocional, costurando narrativas sob diferentes perspectivas. Faixas como “As I Lie Bleeding” encaram o limite da existência, enquanto “I’m Sorry” (cover de Dilba Demirbag) traduz o luto em forma quase palpável.

A força do Evergrey está justamente na coerência: paranoia, fé, trauma e até abdução alienígena aparecem não como gimmick, mas como extensões de um universo lírico consistente. É uma banda que não tenta agradar — constrói um clima e te puxa pra dentro.

Se ainda não conhece, não espere um som fácil. O que você vai encontrar é um mergulho psicológico conduzido pela voz marcante de Tom S. Englund, acompanhado por músicos que entendem exatamente o peso e o espaço de cada nota.

domingo, 5 de abril de 2026

LEPTHOSPIROSE

A BANDA NASCIDA DO CAOS

Por Michel Sales 

Essa é a história de uma turma que resolveu trazer o heavy metal pra Roraima na marra, bebendo direto das bandas dos anos 70 e 80, com mais atitude do que estrutura e mais coragem do que noção. Era talento cru, criatividade no limite e um som tentando ecoar além das fronteiras — mesmo sem saber direito como.

E foi aqui mesmo, no meio do nada pro mapa do rock, que surgiram nomes que viraram referência. Alguns fizeram história, outros fizeram bagunça… mas todos deixaram marca — nem que fosse no improviso, no caos ou no lado mais cômico dos palcos da vida.

Acesse o link e baixe o quadrinho!

CAPÍTULO FINAL

Sepultura se despede entre nuvens e ruínas Por Michel Sales   Formado em 1984, em Belo Horizonte, o Sepultura se despede deixando um l...