A REALIDADE INVERTIDA
Por Michel Sales
O que é o vazio senão aquilo que não tem nada dentro? Um espaço sem ocupantes, um lugar oco, uma ausência de sentido em uma realidade onde o valor parece ter sido substituído pela conveniência. E o que é o nada? A ausência total de qualquer coisa: de matéria, de existência, de propósito.
Mas talvez exista algo ainda mais perverso: a realidade em que o nada é apresentado como se fosse tudo. É nessa inversão que o poder politiqueiro prospera. Promessas ocupam o lugar de projetos; interesses particulares são vendidos como interesse público; discursos substituem resultados. Enquanto o cidadão luta para sobreviver, a máquina do poder continua girando em torno de cargos, privilégios e conveniências.
E quando a Justiça, que deveria funcionar como último instrumento de equilíbrio, é percebida como submetida a interesses, seletividades ou conveniências políticas, o vazio deixa de ser apenas ausência: torna-se método.
O brasileiro é mantido dentro de uma realidade invertida, na qual questionar é tratado como ameaça, denunciar pode ser mais perigoso do que errar e o poder consegue transformar seus próprios interesses em verdade oficial.
No fim, não é apenas o povo que perde. Perde a democracia, perde a Justiça e perde o sentido de viver em uma sociedade onde as instituições deveriam existir para servir ao cidadão — e não para mantê-lo como espectador da própria impotência.

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