A brutalidade do Grave Digger em Return of
the Reaper
Por Michel Sales
Já escrevi diversas resenhas sobre discos do Grave
Digger, principalmente de álbuns que deixaram marcas profundas na vasta
discografia dessa lendária banda alemã. E digo — e repito: quando esses caras
acertam a mão, é melhor sair da frente, porque a pancadaria é de proporções
descomunais.
É exatamente o caso de Return of the Reaper (2014), um
daqueles trabalhos em que o Grave Digger decidiu deixar os grandes conceitos
épicos um pouco de lado e voltar a fazer aquilo que sabe como poucos: Heavy
Metal na veia, pesado, direto e sem frescura.
Com 12 faixas insanas, o 17º álbum de estúdio da banda
representa um verdadeiro retorno às raízes. Chris Boltendahl e sua tropa de
ceifadores simplificaram a fórmula sem, contudo, diminuir a intensidade: riffs
rápidos e secos, doses generosas de Heavy/Speed/Power Metal, menos teclados,
refrãos simples e pegajosos, guitarras agressivas e uma temática que passeia
tranquilamente por morte, túmulos, inferno, guerra e destruição. Tudo isso
resulta em um disco tradicional, visceral e extremamente objetivo.
A faixa-título, “Return of the Reaper”, abre os
trabalhos em clima fúnebre, com vento, trovões, marcha, cavalos e uma
ambientação praticamente cinematográfica, como se o próprio Ceifador estivesse
retornando do além para cobrar algumas almas. E, na sequência, “Hell Funeral”
surge como uma verdadeira declaração de guerra. Boltendahl vocifera como se
estivesse convocando um exército de mortos para marchar sobre os vivos.
“War God” mantém a marcha pesada, com riffs marcantes e
excelente trabalho de guitarra. Já “Tattooed Rider” traz aquele Grave Digger
mais tradicional, com uma pegada que inevitavelmente remete ao universo do
Judas Priest.
Em “Resurrection Day”, a velocidade aumenta e alguns
momentos carregam aquela sujeira típica do Motörhead. “Road Rage Killer” é
provavelmente uma das faixas mais divertidas do álbum: Heavy Metal sobre rodas,
acelerado, simples e explosivo.
E então vem “Grave Desecrator”, outro grande momento do
disco. O refrão é daqueles que grudam imediatamente e a atmosfera remete
diretamente ao Grave Digger clássico. É uma faixa que resume muito bem a
proposta do álbum: peso, velocidade e aquele espírito old school que acompanha
a banda desde seus primeiros anos.
“Season of the Witch” mergulha em uma atmosfera mais
sombria e pesada, enquanto “Death Smiles at Us” aposta em um clima mais
dramático, mostrando que a banda ainda sabe trabalhar diferentes nuances sem
abandonar sua identidade.
Para fechar, “Nothing to Believe” quebra um pouco a
brutalidade do restante do álbum. É uma espécie de balada Heavy Metal mais
melódica, permitindo que Chris Boltendahl mostre um lado menos agressivo e mais
contido.
Return of the Reaper não pretende reinventar o Grave
Digger — e talvez esteja justamente aí uma de suas maiores virtudes. O disco
não precisa inventar moda para funcionar. Ele simplesmente resgata a essência
da banda, coloca algumas toneladas de peso sobre ela e entrega tudo com uma
produção moderna. É uma verdadeira visita ao passado sem abrir mão do presente.
O Ceifador voltou, abriu a cova, afiou a foice e trouxe
consigo uma coleção de riffs capazes de ressuscitar até os mortos.
Poucos atores conseguiram construir uma presença tão
monumental na cultura pop quanto Sir Christopher Lee (1922–2015). Com quase
dois metros de altura, uma voz grave e inconfundível e uma carreira
cinematográfica de mais de seis décadas, Lee tornou-se sinônimo de personagens
sombrios, aristocráticos e ameaçadores. Drácula, Saruman e Conde Dooku estão
entre os papéis que ajudaram a transformar sua figura em um dos grandes ícones
do cinema fantástico.
Mas existe uma fase de sua trajetória que parece saída
de uma história de Heavy Metal: já octogenário, Christopher Lee decidiu
mergulhar de cabeça no gênero. E não como uma simples participação especial.
Ele gravou discos, cantou, narrou sagas de fantasia, interpretou personagens
históricos e chegou a figurar na parada da Billboard aos 91 anos.
Sua relação mais marcante com o Metal aconteceu ao lado
do Rhapsody, banda italiana que posteriormente adotaria o nome Rhapsody of
Fire. A parceria começou em 2004, com Symphony of Enchanted Lands II – The Dark
Secret, e encontrou no timbre grave do ator a voz perfeita para narrar um
universo de espadas, magia, demônios, profecias e batalhas épicas.
Lee assumiu o papel do Wizard King, o Rei Mago,
funcionando praticamente como o narrador de uma grande fantasia medieval. Sua
voz não aparece apenas como um adorno: ela ajuda a construir a atmosfera
cinematográfica da banda, transformando as introduções e narrações em
verdadeiros prólogos de uma epopeia.
O primeiro grande momento dessa parceria, porém, foi
além da narração. Em The Magic of the Wizard's Dream, Christopher Lee divide os
vocais com Fabio Lione e demonstra que sua voz operística poderia conviver
perfeitamente com o universo sinfônico do Rhapsody. A música tornou-se uma das
colaborações mais emblemáticas entre o cinema fantástico e o Metal.
A parceria continuaria em Triumph or Agony (2006),
primeiro álbum lançado sob o nome Rhapsody of Fire, e posteriormente em The
Frozen Tears of Angels (2010) e From Chaos to Eternity (2011), encerrando sua
participação em vida na chamada The Dark Secret Saga.
A saga é uma continuação conceitual do universo criado
anteriormente pela banda em The Emerald Sword Saga. No centro da narrativa
estão os misteriosos Sete Livros Negros, especialmente o perigoso Book of
Shadows, capaz de abrir portais e libertar forças demoníacas sobre o mundo de
Algalord.
É exatamente nesse território que Christopher Lee se
encaixa com perfeição. Sua voz funciona como uma espécie de portal entre a
música e a literatura fantástica. Ele apresenta profecias, acontecimentos e
personagens como se estivesse narrando uma antiga crônica medieval encontrada
em algum tomo proibido.
A história acompanha personagens como Dargor e Tarish em
uma jornada envolvendo o Livro das Sombras, forças demoníacas, terras
congeladas e confrontos de proporções apocalípticas. Em From Chaos to Eternity,
a narrativa chega ao seu clímax com o confronto entre Dargor e o Deus Demônio
Nekron.
Mas a relação de Lee com o universo do Rhapsody não
terminaria completamente em 2011. Em The Eighth Mountain (2019), lançado quatro
anos após sua morte, a banda utilizou material narrado pelo ator que havia sido
gravado anteriormente. Na faixa final, Tales of a Hero's Fate, sua voz
reaparece como uma espécie de elo entre o passado e uma nova fase da mitologia
do grupo.
E então chegamos à outra faceta dessa história:
Christopher Lee não foi apenas narrador de Heavy Metal. Ele também se tornou um
artista de Metal. Em 2010, aos 87 anos, lançou Charlemagne: By the Sword and
the Cross, álbum dedicado à figura histórica de Carlos Magno, personagem que
Lee dizia integrar sua própria ancestralidade familiar. O trabalho mistura
Metal sinfônico, música clássica, coral e elementos operísticos, funcionando
como uma verdadeira ópera metálica.
Três anos depois, aos 91, veio Charlemagne: The Omens of
Death. Se o primeiro álbum transitava fortemente pelo universo sinfônico, o
segundo mergulhou de maneira muito mais direta no Heavy Metal tradicional.
Guitarras pesadas, bateria poderosa e arranjos mais agressivos criaram um
contraste fascinante com a voz grave e teatral do ator.
A produção contou ainda com músicos ligados ao universo
do Metal, incluindo Richie Faulkner, guitarrista do Judas Priest. O resultado
é, no mínimo, inusitado: um dos maiores intérpretes do cinema fantástico
cantando sobre Carlos Magno enquanto guitarras distorcidas rasgam o fundo
musical.
Aos 92 anos, Lee ainda teria fôlego para lançar Metal
Knight (2014), EP que transformou clássicos da música e do teatro em versões
metálicas. Entre as escolhas estavam I, Don Quixote, The Impossible Dream, The
Toreador March e My Way.
E como se tudo isso já não fosse suficientemente
extraordinário, Christopher Lee ainda transformou o Natal em Heavy Metal. Em A
Heavy Metal Christmas (2012), apresentou versões de clássicos natalinos como
Little Drummer Boy e Silent Night. No ano seguinte, A Heavy Metal Christmas Too
trouxe Jingle Hell, uma releitura metaleira de Jingle Bells. Aos 91 anos, Lee
entrou para a história ao alcançar a Billboard com a música.
Existe algo de profundamente simbólico nessa trajetória.
Christopher Lee começou sua carreira cinematográfica décadas antes de muitos
dos músicos que posteriormente o acompanhariam. Quando o Heavy Metal surgiu,
ele já era um ator consagrado. Quando gravou seus primeiros trabalhos no
gênero, já tinha idade suficiente para ser avô de muitos de seus fãs.
Ainda assim, recusou-se a transformar a idade em limite.
Sua passagem pelo Metal também revela algo que talvez explique a afinidade
entre ele e o gênero. O Heavy Metal sempre cultivou uma relação intensa com
mitologia, literatura, história, fantasia, guerra, heroísmo, tragédia e morte.
Lee, por sua vez, passou décadas interpretando justamente esse universo. Sua
voz parecia ter sido criada para narrar batalhas antigas, reis esquecidos,
feiticeiros, dragões e mundos ameaçados pelo caos.
Por isso, quando sua voz surge em um álbum do Rhapsody
of Fire, não parece uma participação aleatória de uma celebridade. Parece uma
peça que finalmente encontrou o lugar onde deveria estar. Christopher Lee foi
Drácula, Saruman e Conde Dooku. Foi também Carlos Magno. Foi o Wizard King. Foi
narrador de profecias e cantor de Heavy Metal.
E talvez essa seja a parte mais fascinante de sua
história: quando a maioria das pessoas pensam que já viveu tudo o que poderia
viver, Christopher Lee resolveu empunhar outra espada — desta vez, uma guitarra
distorcida como trilha sonora. Morreu em 2015, aos 93 anos, mas deixou uma obra
que parece contrariar a própria lógica do tempo.
A natureza é viva. Ela se move pela força do vento, pela energia do solo, pelo movimento das águas e pelo giro gravitacional da Terra.
É fluida na chuva, inquieta nos mares, misteriosa nos uivos das cavernas e silenciosa nos sussurros das florestas.
Transborda vida nos vulcões, no voo dos pássaros, nos passos das pessoas e no movimento dos animais sobre a Terra.
A natureza pode ser tocada, transformada e habitada, mas também precisa de espaços intocados — preservados e protegidos para que a vida siga seu curso sem danos.
Porque a natureza, assim como a própria vida humana, se transforma, se adapta, se refaz e se sedimenta no tempo.
Mas também pode despertar sua fúria.
Quando o equilíbrio é rompido, ela responde. E sua força não escolhe lados: espalha-se sobre todos como um efeito que devolve ao mundo aquilo que nele foi acumulado.
O que é o vazio senão aquilo que não tem nada dentro? Um espaço sem ocupantes, um lugar oco, uma ausência de sentido em uma realidade onde o valor parece ter sido substituído pela conveniência. E o que é o nada? A ausência total de qualquer coisa: de matéria, de existência, de propósito.
Mas talvez exista algo ainda mais perverso: a realidade em que o nada é apresentado como se fosse tudo. É nessa inversão que o poder politiqueiro prospera. Promessas ocupam o lugar de projetos; interesses particulares são vendidos como interesse público; discursos substituem resultados. Enquanto o cidadão luta para sobreviver, a máquina do poder continua girando em torno de cargos, privilégios e conveniências.
E quando a Justiça, que deveria funcionar como último instrumento de equilíbrio, é percebida como submetida a interesses, seletividades ou conveniências políticas, o vazio deixa de ser apenas ausência: torna-se método.
O brasileiro é mantido dentro de uma realidade invertida, na qual questionar é tratado como ameaça, denunciar pode ser mais perigoso do que errar e o poder consegue transformar seus próprios interesses em verdade oficial.
No fim, não é apenas o povo que perde. Perde a democracia, perde a Justiça e perde o sentido de viver em uma sociedade onde as instituições deveriam existir para servir ao cidadão — e não para mantê-lo como espectador da própria impotência.
Em O Expresso das Cores, embarcamos em uma viagem de amizade, empatia e descobertas. A história nos mostra que, independentemente da cor da pele, da origem ou da cultura, somos mais fortes quando caminhamos juntos.
O PT chegou ao poder prometendo ética, justiça social e combate à velha política. O que veio depois foi uma sucessão de escândalos que marcou profundamente sua passagem pelo governo federal.
Mensalão, em 2005. Petrolão e Lava Jato, a partir de 2014. Zelotes, fundos de pensão e outros casos. Um roteiro de propinas, operadores, empreiteiras, contratos públicos e condenações que expôs a promiscuidade entre dinheiro e poder.
E o problema não é apenas o dinheiro desviado, mas a enorme distância entre o discurso histórico de ética na política e a realidade revelada pelas investigações.
A Lepthos fez um show de speed metal, literalmente, na noite de ontem, no XVIII Encontro Internacional de Motos de Alta Cilindrada, em, Boa Vista.
O quinteto entrou no palco arregaçando, com a plateia agitada e sangue nos zóio para curtir os maiores clássicos da Donzela de Ferro. Mas o que estava rendendo de tão bom e épico durou somente um piscar de olhos, pois a banda foi convidada a se retirar do palco para dar lugar a caras e bocas de apoiadores. Ou seja, entrou um comercial forçado, feito um tabefe na cara dos fãs.
Até pareceu que motos e rock’n’roll estavam fora de contexto em um encontro onde a melhor música é aquela que chega com calibragem extrema nos tímpanos, acompanhada de boas letras, criatividade e desenvoltura.
No mais, aguardemos os próximos capítulos desse desfecho infeliz.