A saga de Christopher Lee no Heavy Metal
Por Michel Sales
Poucos atores conseguiram construir uma presença tão monumental na cultura pop quanto Sir Christopher Lee (1922–2015). Com quase dois metros de altura, uma voz grave e inconfundível e uma carreira cinematográfica de mais de seis décadas, Lee tornou-se sinônimo de personagens sombrios, aristocráticos e ameaçadores. Drácula, Saruman e Conde Dooku estão entre os papéis que ajudaram a transformar sua figura em um dos grandes ícones do cinema fantástico.
Mas existe uma fase de sua trajetória que parece saída de uma história de Heavy Metal: já octogenário, Christopher Lee decidiu mergulhar de cabeça no gênero. E não como uma simples participação especial. Ele gravou discos, cantou, narrou sagas de fantasia, interpretou personagens históricos e chegou a figurar na parada da Billboard aos 91 anos.
Sua relação mais marcante com o Metal aconteceu ao lado do Rhapsody, banda italiana que posteriormente adotaria o nome Rhapsody of Fire. A parceria começou em 2004, com Symphony of Enchanted Lands II – The Dark Secret, e encontrou no timbre grave do ator a voz perfeita para narrar um universo de espadas, magia, demônios, profecias e batalhas épicas.
Lee assumiu o papel do Wizard King, o Rei Mago, funcionando praticamente como o narrador de uma grande fantasia medieval. Sua voz não aparece apenas como um adorno: ela ajuda a construir a atmosfera cinematográfica da banda, transformando as introduções e narrações em verdadeiros prólogos de uma epopeia.
O primeiro grande momento dessa parceria, porém, foi além da narração. Em The Magic of the Wizard's Dream, Christopher Lee divide os vocais com Fabio Lione e demonstra que sua voz operística poderia conviver perfeitamente com o universo sinfônico do Rhapsody. A música tornou-se uma das colaborações mais emblemáticas entre o cinema fantástico e o Metal.
A parceria continuaria em Triumph or Agony (2006), primeiro álbum lançado sob o nome Rhapsody of Fire, e posteriormente em The Frozen Tears of Angels (2010) e From Chaos to Eternity (2011), encerrando sua participação em vida na chamada The Dark Secret Saga.
A saga é uma continuação conceitual do universo criado anteriormente pela banda em The Emerald Sword Saga. No centro da narrativa estão os misteriosos Sete Livros Negros, especialmente o perigoso Book of Shadows, capaz de abrir portais e libertar forças demoníacas sobre o mundo de Algalord.
É exatamente nesse território que Christopher Lee se encaixa com perfeição. Sua voz funciona como uma espécie de portal entre a música e a literatura fantástica. Ele apresenta profecias, acontecimentos e personagens como se estivesse narrando uma antiga crônica medieval encontrada em algum tomo proibido.
A história acompanha personagens como Dargor e Tarish em uma jornada envolvendo o Livro das Sombras, forças demoníacas, terras congeladas e confrontos de proporções apocalípticas. Em From Chaos to Eternity, a narrativa chega ao seu clímax com o confronto entre Dargor e o Deus Demônio Nekron.
Mas a relação de Lee com o universo do Rhapsody não terminaria completamente em 2011. Em The Eighth Mountain (2019), lançado quatro anos após sua morte, a banda utilizou material narrado pelo ator que havia sido gravado anteriormente. Na faixa final, Tales of a Hero's Fate, sua voz reaparece como uma espécie de elo entre o passado e uma nova fase da mitologia do grupo.
E então chegamos à outra faceta dessa história: Christopher Lee não foi apenas narrador de Heavy Metal. Ele também se tornou um artista de Metal. Em 2010, aos 87 anos, lançou Charlemagne: By the Sword and the Cross, álbum dedicado à figura histórica de Carlos Magno, personagem que Lee dizia integrar sua própria ancestralidade familiar. O trabalho mistura Metal sinfônico, música clássica, coral e elementos operísticos, funcionando como uma verdadeira ópera metálica.
Três anos depois, aos 91, veio Charlemagne: The Omens of Death. Se o primeiro álbum transitava fortemente pelo universo sinfônico, o segundo mergulhou de maneira muito mais direta no Heavy Metal tradicional. Guitarras pesadas, bateria poderosa e arranjos mais agressivos criaram um contraste fascinante com a voz grave e teatral do ator.
A produção contou ainda com músicos ligados ao universo do Metal, incluindo Richie Faulkner, guitarrista do Judas Priest. O resultado é, no mínimo, inusitado: um dos maiores intérpretes do cinema fantástico cantando sobre Carlos Magno enquanto guitarras distorcidas rasgam o fundo musical.
Aos 92 anos, Lee ainda teria fôlego para lançar Metal Knight (2014), EP que transformou clássicos da música e do teatro em versões metálicas. Entre as escolhas estavam I, Don Quixote, The Impossible Dream, The Toreador March e My Way.
E como se tudo isso já não fosse suficientemente extraordinário, Christopher Lee ainda transformou o Natal em Heavy Metal. Em A Heavy Metal Christmas (2012), apresentou versões de clássicos natalinos como Little Drummer Boy e Silent Night. No ano seguinte, A Heavy Metal Christmas Too trouxe Jingle Hell, uma releitura metaleira de Jingle Bells. Aos 91 anos, Lee entrou para a história ao alcançar a Billboard com a música.
Existe algo de profundamente simbólico nessa trajetória. Christopher Lee começou sua carreira cinematográfica décadas antes de muitos dos músicos que posteriormente o acompanhariam. Quando o Heavy Metal surgiu, ele já era um ator consagrado. Quando gravou seus primeiros trabalhos no gênero, já tinha idade suficiente para ser avô de muitos de seus fãs.
Ainda assim, recusou-se a transformar a idade em limite. Sua passagem pelo Metal também revela algo que talvez explique a afinidade entre ele e o gênero. O Heavy Metal sempre cultivou uma relação intensa com mitologia, literatura, história, fantasia, guerra, heroísmo, tragédia e morte. Lee, por sua vez, passou décadas interpretando justamente esse universo. Sua voz parecia ter sido criada para narrar batalhas antigas, reis esquecidos, feiticeiros, dragões e mundos ameaçados pelo caos.
Por isso, quando sua voz surge em um álbum do Rhapsody of Fire, não parece uma participação aleatória de uma celebridade. Parece uma peça que finalmente encontrou o lugar onde deveria estar. Christopher Lee foi Drácula, Saruman e Conde Dooku. Foi também Carlos Magno. Foi o Wizard King. Foi narrador de profecias e cantor de Heavy Metal.
E talvez essa seja a parte mais fascinante de sua
história: quando a maioria das pessoas pensam que já viveu tudo o que poderia
viver, Christopher Lee resolveu empunhar outra espada — desta vez, uma guitarra
distorcida como trilha sonora. Morreu em 2015, aos 93 anos, mas deixou uma obra
que parece contrariar a própria lógica do tempo.



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