Sangue, mar e condenação no Holandês Voador
Por Michel Sales
Um homem dominado pela ambição desafia os limites humanos, transforma-se numa entidade condenada a vagar eternamente pelo mar e, séculos depois, sua maldição continua encontrando novas vítimas. Essa é a história de Death Came Through a Phantom Ship (2010), um dos conceitos mais cinematográficos do Carach Angren, que transforma a lenda holandesa do Holandês Voador (Flying Dutchman) em um verdadeiro terror marítimo.
Segundo disco da banda, Death Came Through a Phantom Ship funciona quase como um filme de horror contado em capítulos. A narrativa começa em um presente — ou futuro — tecnológico, com uma embarcação equipada com rádio atravessando o oceano. O capitão detecta algo estranho no radar e acaba avistando um navio fantasma. Só que o encontro não é simplesmente assustador: a aparição funciona como um presságio de morte.
A abertura, “Electronic Voice Phenomena”, é praticamente uma cena de filme. Uma comunicação de rádio é interrompida por uma voz sobrenatural que ameaça o capitão. Em seguida, “The Sighting Is a Portent of Doom” apresenta o encontro com o navio espectral. Em “...And the Consequence Macabre”, o marinheiro volta para casa traumatizado pelo que viu. Durante a noite, tem um pesadelo no qual acredita estar lutando contra uma figura sinistra. Ele mata aquilo que acredita serem monstros — mas, quando desperta, percebe que não estava sonhando. Sua esposa está mutilada e sua filha está morta.
O horror então chega ao extremo: ele mata a própria esposa para “libertá-la” daquele sofrimento e, em seguida, tira a própria vida. Ou seja: o navio fantasma não precisa sequer tocar fisicamente no homem. O simples contato com sua presença desencadeia a tragédia. A aparição transforma-se em uma espécie de maldição psicológica. E então o álbum volta no tempo.
Depois de apresentar a consequência, o disco passa a contar a origem do monstro. Entramos na história do capitão Van der Decken, apresentado como um comandante extremamente ambicioso, brutal e obcecado por riqueza e sucesso. Seu navio está ligado à Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), e a narrativa incorpora comércio, exploração, violência e escravidão ao passado do personagem.
Desafiando Deus e o próprio mar em “Van Der Decken's Triumph”, a viagem começa como uma demonstração de poder. Mas tudo desmorona. Tempestades destroem o navio. A tripulação fica presa no mar. A comida apodrece. Surge a peste. Os marinheiros começam a morrer e a cometer suicídio. Van der Decken, completamente consumido pela loucura, passa a assassinar os sobreviventes. Até que ele morre — e retorna como fantasma.
A música termina justamente com essa passagem do homem para a entidade sobrenatural que assombrará os mares. O navio deixa de ser simplesmente um navio. A partir daí, o álbum muda de perspectiva. A embarcação passa a existir praticamente fora do tempo. Em “The Course of a Spectral Ship”, histórias sobre o navio fantasma começam a circular entre marinheiros. Pessoas desaparecem. Famílias esperam por homens que nunca retornam. Sobreviventes descrevem um navio negro surgindo da tempestade, com uma figura espectral na proa e um cão negro ao lado. O navio atravessa outra embarcação como se fosse feito de névoa. Não é mais um barco navegando pelo oceano. É uma espécie de manifestação da própria morte.
No final, Van der Decken está condenado à eternidade. A última faixa, “The Shining Was a Portent of Gloom”, mostra o capitão completamente preso à sua condição sobrenatural. Ele está condenado a vagar eternamente. Sua riqueza desapareceu. Seu triunfo virou fracasso. Seu navio tornou-se uma espécie de castelo negro flutuando no vazio, e Van der Decken permanece acorrentado à embarcação, jurando vingança contra outros navegantes. É nesse ponto que o título Death Came Through a Phantom Ship ganha seu sentido completo. A morte não está apenas no navio. A morte vem através dele.
Nota: 8
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