segunda-feira, 21 de setembro de 2026

CARACH ANGREN

Sete histórias para um inferno

Por Michel Sales

 

A guerra é o cenário, mas o verdadeiro protagonista é o indivíduo destruído por ela. Esse é o mote de Where the Corpses Sink Forever (2012), terceiro álbum do Carach Angren e momento em que a banda leva sua fórmula de “filme de terror em forma de álbum” para um território muito mais humano, brutal e perturbador.

Depois de Death Came Through a Phantom Ship, os holandeses decidiram mergulhar em um universo ainda mais sombrio. O próprio Ardek explicou que este foi o primeiro álbum cujas histórias foram inteiramente criadas pela banda. A intenção era fugir da visão tradicional da guerra — grandes batalhas, exércitos, canhões e estratégias militares — para se concentrar no terror individual, nas pequenas tragédias e na devastação psicológica provocada pelo conflito.

O resultado é um álbum construído a partir de sete “visões de guerra”, atravessando referências à Primeira e à Segunda Guerra Mundial e à Guerra do Vietnã. Não existe uma narrativa linear. São histórias diferentes, conectadas por um mesmo universo de morte, loucura, sofrimento e sobrenatural.

Tudo começa com “An Ominous Recording”, uma das introduções mais perturbadoras da discografia da banda. A faixa funciona como o registro de uma execução. Um soldado recebe a ordem de matar sete prisioneiros de guerra. Os disparos são ouvidos, assim como a voz do militar descrevendo o que está acontecendo. Mas há algo profundamente errado naquela cena.

Os prisioneiros não reagem como seres humanos diante da morte. Eles parecem sorrir, como se soubessem de alguma coisa que o soldado desconhece. Aos poucos, a execução deixa de parecer um simples ato de guerra e ganha uma dimensão sobrenatural. Aqueles sete homens estão ligados a entidades demoníacas, e o soldado acaba condenado a um ciclo de sofrimento, revivendo eternamente o horror que ajudou a desencadear. É o primeiro sinal de que, neste álbum, a guerra não termina quando os tiros cessam.

A partir daí, cada faixa mergulha em uma situação diferente. “Lingering in an Imprint Haunting” trabalha justamente essa permanência do trauma: o passado não desaparece quando o combate termina. Ele permanece como uma marca, uma assombração psicológica que continua perseguindo quem sobreviveu.

Em “Bitte Tötet Mich” — “Por favor, matem-me” — o desespero chega ao limite. Um soldado deseja a própria morte e tenta escapar da existência por meio do suicídio. Só que, naquele universo, até a morte parece incapaz de oferecer libertação. O sofrimento transforma-se em uma prisão da qual não há saída.

E então surge uma das histórias mais bonitas e trágicas do disco: “The Funerary Dirge of a Violinist”. Aqui, o horror ganha uma dimensão quase poética. O protagonista é um violinista que tenta preservar sua música enquanto o mundo ao redor é destruído pela guerra. Ardek explicou que a ideia era justamente mostrar o indivíduo tentando manter sua expressão artística em um ambiente completamente hostil. O músico atravessa os campos devastados pelo conflito, tocando sua última melodia, até encontrar a morte. É uma imagem poderosa: enquanto homens empunham armas, alguém insiste em empunhar um violino. 

Depois vem “Sir John”, uma história ainda mais grotesca, na qual guerra, fome e degradação humana se transformam em horror corporal. A própria condição humana começa a apodrecer. E essa talvez seja uma das características mais fortes do álbum: não existe glamourização da batalha. Não existem heróis triunfantes, medalhas ou vitórias gloriosas. Existe gente enlouquecendo, morrendo, sofrendo e tentando encontrar alguma maneira de escapar.

Em “Spectral Infantry Battalions”, o sobrenatural retorna com força. A guerra deixa de ser apenas um acontecimento histórico e passa a produzir fantasmas. Soldados mortos continuam marchando, como se o conflito tivesse ultrapassado a própria morte. É justamente nessa mistura que o Carach Angren encontra sua força narrativa. A guerra real já é suficientemente monstruosa; a banda acrescenta demônios, aparições e maldições para transformar esse horror histórico em horror sobrenatural. 

“General Nightmare” leva essa ideia ainda mais longe. O título já apresenta a figura do “General Pesadelo”, uma presença militar que ultrapassa a condição de simples comandante e assume uma dimensão quase demoníaca. A guerra começa a parecer menos um acontecimento conduzido por homens e mais uma força monstruosa que consome todos aqueles que entram em seu caminho.

Em “Little Hector What Have You Done?”, o horror ganha outro elemento devastador: a infância. A presença de uma criança diante da violência da guerra cria um contraste brutal com o ambiente militar e com as atrocidades que cercam os personagens. Mais uma vez, o Carach Angren não precisa descrever uma grande batalha. Basta mostrar o que a guerra é capaz de fazer com um único indivíduo.

E então chegamos ao encerramento: “These Fields Are Lurking (Seven Pairs of Demon Eyes)”. A faixa final é fundamental para compreender a arquitetura do álbum. O título evoca campos onde algo permanece escondido, observando. E o subtítulo — “Seven Pairs of Demon Eyes” — devolve o ouvinte às sete figuras apresentadas no início. O álbum, então, parece fechar um círculo. Começamos com a execução dos sete prisioneiros e terminamos novamente diante da presença demoníaca associada a eles. A sensação é de que aquele horror não possui um verdadeiro fim. A história simplesmente retorna ao ponto de partida, condenada a continuar acontecendo.

Where the Corpses Sink Forever é, acima de tudo, um álbum sobre aquilo que a guerra faz com o ser humano. O Carach Angren pega um dos acontecimentos mais brutais da experiência humana e o transforma em uma narrativa de horror, misturando trauma, loucura, morte, fantasmas e demônios.

Se em Death Came Through a Phantom Ship a banda transformava uma antiga lenda marítima em pesadelo, aqui ela faz algo ainda mais perturbador: transforma a própria guerra em uma assombração. Os corpos afundam para sempre, mas as histórias não.

Nota: 10

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